Papo de Teólogo

Conhecereis a verdade e ela vos assustará.

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Seria Jesus o arcanjo Miguel?

outubro 2nd, 2008 by René Vasconcelos

O leitor Wanderson, do Rio de Janeiro, me mandou por email uma questão curiosa que, apesar de não ser muito discutida no meio teológico, nos traz uma visão ampla de como é possível distorcer a Palavra de Deus com o uso da própria Bíblia e muita, mas muita criatividade.

Em seu email, o leitor questionou acerca da afirmação de que Jesus seria o arcanjo Miguel. Essa afirmação, conforme ele mesmo apontou, tem seu principal apoio nas seguintes afirmações:

- Quando Miguel se levantar, viverão os que estiverem com o nome no livro da vida (Dn 12:1). Na volta de Cristo ocorrerá o mesmo (Ap 3:5).
- Miguel é chamado de “o Grande Príncipe” que está “a favor dos filhos do teu povo” (Dn 12:1). Deus elevou Jesus “a Príncipe e Salvador“, para estar a favor dos Seus filhos, dando “o arrependimento e a remissão dos pecados“. (At 5:31)
- “Miguel, vosso Príncipe“, “se levanta a favor dos filhos do teu povo” (Dn 10:21; 12:1). Cristo, “o príncipe da salvação deles” (Hb. 2:10), “o príncipe do teu povo” (At. 23:5).
- Miguel recebe adoração (Js. 5:14). Adoração só a Deus pertence (Mt. 4:10).
- E em 1Ts. 4:16 se lê: “Porque o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, com a voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro“.

Antes de continuarmos, vale lembrar que comparar Jesus com o arcanjo Miguel é uma visão não-trinitariana, ou seja, que não aceita de forma integral a Trindade do Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Como sigo uma teologia trinitariana e, para mim, Jesus é Deus e o resto é criatura, vou dar o meu ponto de vista sobre o assunto. Vamos lá!

A problemática do nome

Já de início encontramos um problema; o nome Miguel, numa tradução literal, significa “quem é semelhante a Deus“. Bom, em Sl 35:10 e 89:8 temos a indagação de quem é como o Senhor? Se não existe ninguém igual ao Senhor então encontramos um problemão: como é que pode Miguel, uma criatura, ter em seu nome que é semelhante a Deus? Jesus não é semelhante ao Senhor, Ele É o Senhor (Jo 1:1).

Segundo o Talmude, livro de tradições hebraicas, o nome Miguel é na verdade uma questão. Seria na verdade “quem é semelhante a Deus?” o que resolveria bem essa problemática.

A tradução do nome Miguel como uma afirmação é algo recente, proveniente de traduções abertas do hebraico. Se os próprios hebreus traduzem o nome Miguel como uma indagação, quem somos nós para contrariar?

Miguel é príncipe?

Antes devemos lembrar que Miguel é citado 5 vezes na Bíblia; 3 vezes em Daniel (10:13, 10:21 e 12:1), 1 vez em Judas (1:9 e é a única vez que cita o cargo dele de “arcanjo”) e 1 vez em Apocalipse (12:7).

No livro de Daniel, Miguel é tratado como “príncipe”. Mas devemos notar que em Dn 10:13 ele é declarado como UM DOS príncipes. Ou seja, a palavra príncipe sugere apenas um status hierárquico “angelical” e responsável direto pelos hebreus. Nos livros de Judas e Apocalipse ele é retratado como um anjo de combate, lutando diretamente contra o diabo. Vale lembrar que a cena do anjo Miguel combatendo o diabo pelo corpo de Moisés é uma tradição retirada do livro apócrifo “Ascensão de Moisés”. Fica a pergunta… porque uma passagem na Bíblia referente a um livro que ficou justamente de fora dela por ser considerado apócrifo?

Tradições judaicas

Segundo o Middrash, outro livro de tradições judaico, Miguel é o advogado de Israel. Ele luta diretamente contra Samael, o demônio acusador de Israel. Numa dessas lutas, na queda do demônio, Samael segurou as asas de Miguel tentando levá-lo na queda, mas Deus o livrou.

Ainda segundo as tradições e lendas judaicas, Miguel quem guardava o Éden para Adão não entrar e o ensinou a plantar, foi o protetor direto dos patriarcas, quem salvou Isaque do sacrifício, o tutor de Moisés e quem escondeu o seu corpo, foi quem destruiu o exército de Senaqueribe e também é ele que abre ou fecha os portões dos céus para os justos.

Enfim, na tradição judaica tem muita lenda sobre ele. Fiquemos somente com as traduções deles.

A teologia de Paulo

Agora vamos entender porque Paulo chama Jesus de Príncipe. Estudando a teologia paulina, vemos que ele, diferente de João e Pedro, entende que Jesus sempre foi homem e recebeu o status de divino após ser ressuscitado por Deus. Leiam At 5:30,31:

O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro.
Deus com a sua destra o elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados.

A palavra “príncipe” vem de “archêgon” que significa também “autor”. Paulo, em Atos, chama Jesus de príncipe repetidas vezes, mas não no sentido hierárquico, mas no sentido de autor. Para ele, em sua cabeça tradicionalmente judia, Jesus era o mais próximo que se podia chegar de Deus, mas ainda estava um degrau abaixo de Deus, tendo sido tornado Príncipe após Sua ressurreição.

Anjos sendo adorados?

Na Bíblia existem passagens em que os anjos não podem receber adoração (Ap 22:8,9) e passagens em que anjos recebem prontamente adoração (Js 5:13,14). Segundo uma vertente cristã, bastante utilizada no meio assembleiano, um anjo que recebe adoração é uma citação à Jesus. Ou seja, o “anjo” que aparece para Josué na verdade seria Jesus. Um anjo comum não poderia aceitar adoração por ser uma criatura, mas Jesus que é Deus e vive eternamente, estava presente em muitas passagens bíblicas “disfarçado” de anjo e recebeu prontamente adoração.

Quando digo disfarçado, falo porque no Antigo Testamento não dava para se referir a Jesus como Deus. Então, como toda a personificação de divindade recebia o nome de “anjo”, Jesus poderia ter muito bem aparecido “disfarçado” de anjo. Essa visão, apesar de ser meramente especulativa, recebe o meu carinho por diferenciar bem anjos adorados e não adorados sem muitas viagens teológicas ou enfeites.

Tessalonicences?

Quanto à passagem em I Tessalonicences, segundo a tradução ARA, minha preferida, o texto 4:16 fica dessa forma:

Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro;

Portanto, são três sinais diferentes: A ordem do Senhor, a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta. Nada de Senhor com voz de anjo.

Conclusão

Portanto, não dá para pensar em Jesus como o arcanjo Miguel; uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. A Bíblia é clara se você tiver intenções claras ao lê-la. Deixemos de lado as fantasias, estudemos e oremos para que não sejamos enganados com doutrinas falsas e tendenciosas que rondam o próprio meio evangélico.

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Um papo sobre a Bíblia [4] - um Deus legislador

setembro 4th, 2008 by René Vasconcelos

Estamos já na quarta parte dessa conversa sobre a Bíblia e vamos agora começar a discutir a fundo as problemáticas que a Bíblia nos traz. Já conhecemos vertentes de idéias, revisamos sua história e agora vamos conversar sobre as possíveis contradições muito levantadas por estudiosos e ateus que buscam tentar desmentir a Bíblia.

Vamos começar pelo Pentateuco e discutir uma questão já levantada na primeira parte desse estudo: nos dez mandamentos Deus ordena que não matemos, mas depois manda matar aos cananeus. Porque essa discordância?

Para discutir isso, vamos pensar sobre a situação que o texto de Êxodo remonta. Os hebreus, após sua saída do Egito estavam livres, leves e soltos no mundo; não tinham um rei, não tinham uma estrutura organizacional e não tinham uma legislação ou um código de leis que regessem o modo de viver e punisse quem não vivesse daquela maneira. Talvez você não tenha a idéia da bagunça que é viver sem nenhuma regra ou organização, porque você teve a sorte de nascer em um país com uma estrutura organizacional avançada; o Brasil é bem estruturado politicamente, suas terras são divididas e existem leis para tudo. Se viver em um país estruturado assim como o Brasil já é um caos, imagine viver com um povo sem regra moral nenhuma?

Pois os hebreus se encontravam nessa situação; era urgente a necessidade de algo que delimitasse e moldasse o caráter e o modo de viver daquele povo. Como eles viviam uma TEOCRACIA, onde não existia um rei, foi o próprio Deus quem se encarregou de formar as regras para a vivência dos hebreus. Assim surgiram os dez mandamentos e todas as regras de vida judaica que conhecemos hoje e que estão registradas principalmente no livro de Levítico. Tudo para que o povo tivesse, a partir dali, um manual de como agir e viver, uma verdadeira Constituição ou código penal, inclusive com as penalidades já expostas.

Agora voltemos para o Brasil. Nosso código penal manda não matar e penaliza quem o faça. Mas se um soldado brasileiro mata em guerra ele não será penalizado. Se um policial mata no cumprimento do dever, ele será herói. Não existe contradição no código penal, apenas existe a excessão e a necessidade do país. Assim era com os hebreus; Deus os mandou não matar por uma questão ética e moral, mas não tirou daquele povo o direito de guerrear por terras até porque era uma época de homens muito duros, que escravizavam, estupravam e humilhavam os povos subjulgados. Porque Deus iria querer isso para o seu povo? Eles tinham o direito de se defender e conquistar, como qualquer outro povo!

Diversas leis criadas no livro de Levítico são consideradas cruéis ou preconceituosas a olho nu, mas são muito interessantes se observadas mais a fundo. Por exemplo, a circuncisão (Lv 12:3), que seria um sinal de Deus, é muito útil por ser higiênica e evitar doenças no órgão sexual masculino. Não tocar em mortos (Lv 11:32) ou separar e não se deitar com as mulheres menstruadas (Lv 15:19) também são questões relacionadas à higiene. Visto que o povo antigo não tinha noção nenhuma de higiene, essas eram práticas que ajudavam a evitar quaisquer tipos de infecções. Essas leis também visaram criar uma organização política com a divisão das 12 tribos de Israel, descentralizando assim a liderança de Moisés, atribuindo poderes aos representantes das tribos.

Portanto, a partir do momento que você enxerga o Pentateuco como um livro que lembrava ao povo de Israel a sua história, de onde eles vieram e quais as suas regras e leis, você passa a não enxergar discordância e começa a focar no propósito que é bem sucedido: lembrar a Israel quem eles eram.

Vale lembrar que muitas leis, muitas partes do Pentateuco podem não ter vindo diretamente de Deus como descrito, mas provindo de homens inspirados por Deus que acrescentaram textos conforme a necessidade do povo; vejamos dois exemplos:

- Gênesis 2:4 mostra Deus falando para Adão e Eva: “Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” Pai e mãe? Adão e Eva não faziam noção do que isso fosse e nem para quem se iria ensinar. Aparenta uma inserção da pessoa que montou o livro de Gênesis para fundamentar o casamento.

- O texto dos dez mandamentos, em Êxodo 20, Deus começa falando em segunda pessoa (“Eu sou o Senhor”) mas, chegando em Êxodo 20:11 (“o Senhor abençoou o dia de sábado”), o texto vai para a terceira pessoa e depois volta para a segunda, como se alguém houvesse inserido um texto para explicar o porquê de guardar o sábado. Aliás, a regra de guardar o sábado é muito questionável tanto por causa do texto, quanto por causa de Jesus, o próprio Deus, que não a levava a sério.

Portanto, pode ser que o texto completo não tenha sido ditado por Deus, mas o propósito desses livros teve êxito em legislar e lembrar a Israel quem eles eram. Teve tanto êxito que até hoje nós, gentios, 5 mil anos depois, sabemos quem é o povo de Israel por causa desses 5 livros que compõem o Pentateuco. Isso é uma demonstração considerável do cuidado de Deus em preservar esses ensinamentos.

Semana que vem continuaremos com as problemáticas e vamos discutir sobre as questões numéricas do Antigo Testamento. Até lá!

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Um papo sobre a Bíblia [3] - se ela não for literal, o que será verdade?

agosto 27th, 2008 by René Vasconcelos

Esse estudo é uma série; para ler a série completa clique aqui.

Bom, já conversamos um pouco sobre as possibilidades de interpretação da Bíblia e da história desse livro tão importante para a construção da sociedade como a conhecemos e da nossa própria fé. Agora vamos conversar mais um pouco sobre a questão da literalidade bíblia (ou da falta dela).

Muitos ateus, gnósticos e pessoas mal intencionadas ficam apontando inúmeras falhas nos textos, erros históricos e discrepâncias numéricas. Considerar que a Bíblia não é literal, que apesar de ser inspirada divinamente foi escrita por mãos humanas e, por isso, apresenta alguns erros, responde a muitas dessas questões. Afinal, permanece o propósito da Bíblia de nos fazer conhecer a Deus e explica perfeitamente os erros no texto, por terem sido escritos e copiados por homens sujeitos a falhas.

Porém essa forma de pensar nos traz um enorme problema; se nem tudo na Bíblia é exatamente literal, então o que é? Como podemos acreditar que um texto quer dizer realmente aquilo que lemos? Como podemos continuar a sustentar nossa maneira de agir na Bíblia se não sabemos o que ela quer dizer realmente? Essas questões dão brecha para o surgimento de diversas novas filosofias, teologias, doutrinas e interpretações da Palavra. Afinal você pode pegar um texto que diz sobre alguma doutrina e distorce-la até chegar onde você quer.

Alguns grandes pensadores da atual igreja evangélica no Brasil trazem algumas tentativas de resposta quanto a esse dilema:

Ricardo Gondim fala sobre um “kit coerência”, que seria algo como a consciência própria. Se você vê que a sua interpretação de certa passagem bíblica não é coerente com a vida cristã e o resto da Bíblia, você descarta sua interpretação. O grande problema dessa visão é que os valores mudam muito de pessoa a pessoa; existem pessoas tão corrompidas que acham coerentes seus próprios erros.

Caio Fábio fala que toda a passagem bíblica deve ser comparada com as atitudes de Jesus Cristo. Se você percebe que a sua interpretação de certa passagem não é coerente com a vida de Cristo, você a descarta. Segundo Caio, a Bíblia é a Palavra de Deus enviada a nós através de mãos humanas, passível de problemáticas, mas Jesus era a Palavra encarnada, portanto, sem erros ou más interpretações. O problema é que os atos de Jesus também chegaram até nós através de mãos humanas, testemunhados através de livros escritos 40 anos após a Sua morte. Como saber se esses livros são literais ou não?

Nos corredores da sede da Assembléia de Deus Belém, aqui em São Paulo, corre uma teoria também interessante: se um ensino ou uma doutrina bíblica aparece mais de uma vez na Bíblia quer dizer que ela deve ser aplicada em nossas vidas. Apesar de ser interessante, é uma tentativa simplista de resolver uma questão tão complexa.

O assunto é de difícil trato e bem mais complexo do que se imagina. Eu, pessoalmente, não acredito que haja uma fórmula padrão para se verificar se uma passagem deve ser considerada literal ou não; todos os textos devem ser analisados detalhadamente para verificar se há a presença de erro ou algo acrescentado humanamente. Apesar dessa ser a solução mais dispendiosa, creio ser a mais criteriosa. Fatores como coerência textual, tradução e coerência doutrinária devem ser observados na hora de pensar num texto bíblico como literal ou não.

Mas por que coerência doutrinária? Na minha concepção, simplesmente porque a Bíblia, por ser inspirada divinamente, não apresenta falha doutrinária. Apesar dos textos possuirem pequenos erros de registro, a mensagem doutrinária e ensinadora, o que Deus realmente queria nos ensinar, foi preservada intacta através de milênios graças à intervenção divina.

Lembrando que essas visões sobre a Bíblia não são absolutas; apenas as estou mostrando para que o leitor tenha maior consciência sobre o que se pode pensar dela. Se você acredita ser a Bíblia uma palavra inerrante, ninguém está aqui para contrariá-lo. Nosso intuito é conversar mais sobre a Bíblia no propósito de instigar a necessidade de conhece-la mais profundamente.

No próximo capítulo começaremos a estudar as formas de analisar a Bíblia e suas possíveis falhas. Começaremos com o Pentateuco e sua forma de se relacionar com o povo de Israel.

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Um papo sobre a Bíblia [2] - origens

agosto 19th, 2008 by René Vasconcelos

Se você não leu o primeiro capítulo, clique aqui.

Antes de continuarmos nossas discussões sobre a literalidade da Bíblia, se ela é inerrante ou se é passível de erros, é válido conversarmos um pouco sobre sua origem. De onde vem esse livro que guardamos empoeirado na estante ou amarelando sobre a mesa, aberta no Salmo 91? Como foi compilado, como foi copiado até os dias de hoje, quais os fatores que pesaram na escolha dos livros que o compõem e, principalmente, ele foi adulterado para cegar a fé cristã? Vamos começar.

***O Antigo Testamento***

O Antigo Testamento como nós conhecemos se origina do Tanakh, a Bíblia dos judeus. Ela é composta pelos mesmos textos do nosso Antigo Testamento, mas em posições geralmente diferentes. O Tanakh é composto por diversos livros provindos da tradição hebraica. Muitos desses livros não foram escritos na mesma época em que os fatos descritos aconteceram; provém de uma tradição oral, de histórias que passaram de geração em geração e foram transformados em escritas. Por exemplo: Gênesis é uma compilação de histórias já existentes na tradição hebraica, que Moisés teve o trabalho de ajuntá-las, organizá-las e montá-las, originando Gênesis como nós conhecemos.

Já livros como Samuel e Reis foram escritos de maneira mais atualizada, pela já existência de escribas no reino, que redigiram as histórias de Israel desde os Juízes e os pensamentos de seus reis e profetas.

Mas esses livros não foram criados já grudados uns nos outros; eles eram livros avulsos. Foi com a Grande Assembléia, ou a Grande Sinagoga, assembléia composta por 72 escribas e profetas, que os livros foram “canonizados”, ou seja, que foram escolhidos os livros que fariam parte de um conjunto sagrado. Essa canonização não foi um processo rápido; estima-se que o Tanakh foi compilado entre 400AC até 200AC, num processo de eleição e escolha pelos livros que se adequavam ao Torah e que eram úteis à cultura e à religião hebraica. Essa assembléia teve origem com o fim dos profetas e durou por cerca de duas gerações, até a era rabínica. Para efeito de curiosidade, vale lembrar que o Tanakh é até hoje dividido em três partes:

- Torah: os cinco livros de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronomio).
- Nevi’im: são os livros que cobrem, de maneira cronológica, a entrada na Terra Santa até antes do cativeiro babilônico, excluindo Crônicas. Composto por 8 livros, lembrando que I e II Reis e I e II Samuel são um livro só e os profetas menores estão todos em um só livro (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Os doze profetas).
- Ketuvim: São livros de poesias, cânticos e sabedoria. Formado por 11 livros (Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras/Neemias, Crônicas).

***Septuaginta***

Segundo a tradição, 70 rabinos judeus de Alexandria traduziram o Tanakh para o grego, para Biblioteca de Alexandria. O trabalho foi terminado por volta de 150 AC e incluia livros que não faziam parte do Tanakh, os chamados livros deuterocanônicos, ou seja, livros apócrifos como Tobias, Macabeus, Judite, Sabedoria e Baruque.

***O Novo Testamento***

Vale lembrar que o Novo Testamento, assim como o Antigo, é composto por livros avulsos que foram escritos, muitas vezes, décadas depois do fato descrito por eles. Por exemplo, o evangelho escrito mais próximo da vida de Cristo data de cerca de 70DC. Até 50DC a tradição acerca do cristianismo era apenas oral. Porém dessa época, até 150DC, começaram a circular inúmeros documentos com histórias sobre Jesus, esinamentos, cartas, enfim… inúmeros documentos surgiam creditados aos apóstolos, mas de falsa autoria, além de textos originais adulterados.

A canonização, ao contrário do que muitos pensam não foi um processo instantâneo, onde um grupo de pessoas fizeram uma decisão e pronto; esse processo demorou séculos para ser consumado. Cada igreja usava um texto diferente e haviam muitos usando até mesmo textos gnósticos. Com o surgimento de tantos ensinamentos diferentes, se fazia necessária a sistematização do ensino cristão. Marcion de Sinop, bispo da Ásia Menor, foi o primeiro a dar criar um cânon, uma compilação de textos. Porém ele desprezou totalmente o Antigo Testamento a ponto de adulterar textos da vida de Jesus que o conectassem ao AT.

Desde Marcion, diversos outras tentativas de se formar um cânon foram promovidas. Passou pelo Muratorian, pelo Diatessaron, passou por Irineu e foi ficando cada vez mais parecido com o que nós conhecemos hoje, até chegar, em 331 DC, no tão conhecido Constantino, o Grande. Constantino conheceu o cristianismo através de sua mãe Helena e a fase de sua vida em ocorreu a sua conversão é incerta. Ele solicitou 50 bíblias a Eusébio de Cesaréia para a igreja em Alexandria. Eusébio compilou um texto composto por uma cópia da Septuaginta, os Evangelhos, algumas epístolas, carta aos Hebreus, Timóteo, Tito, Filemon e Apocalipse. Essa necessidade diante de Constantino gerou as primeiras “listas canônicas”, criando o Codex Vaticanus, um dos primeiros exemplos de Bíblia mais próximo com o que conhecemos hoje.

Constantino também convocou, em 325 DC, o Concílio de Nicéia, mas não com intuito de especular sobre o cânon; a grande questão era sobre doutrina, principalmente sobre a questão da relação Jesus-Deus. Ainda naquela época existiam igrejas que consideravam Jesus um profeta, outros um anjo, outros realmente Filho de Deus. Em 382 DC, Jerônimo traduziu a Septuaginta para latim e formou a Vulgata Latina, considerada como cânon oficial até o Concílio de Trento.

No Concílio de Trento, realizado em 1546, foi oficializado pela última vez a versão do cânon incluindo os livros deuterocanônicos. Esses livros estavam juntos à Vulgata, mas em uma seção chamada Apocripha. Neste concílio também foi condenado os princípios protestantes promovidos por Lutero. Foi neste ponto em que separaram as Bíblias e as doutrinas católicas das protestantes.

É bom lembrar que os concílios, assim como todos os grupos que fizeram parte dessa longa formação do cânon, tinham como base para aceitação dos livros: a autoridade do autor através da forma de escrever ou de passar uma idéia no texto; conteúdo que desmontrasse um real caráter divino, além de outros fatores. É interessante observar que, mesmo antes dos canôns, as igrejas cristãs usavam praticamente os mesmos livros para ensinamento. Demonstração de inspiração divina?

***Copistas e adulterações de texto***

Outro grande ponto de questionamento é sobre a autenticidade do texto canônico. Seria ele modificado ao bel prazer dos líderes religiosos para cegar os fiéis? Um texto adulterado por homens para manipular a sociedade? A história não nos permite tal hipótese. Como sabemos que o processo de canonização, ou escolha dos livros para formar a Bíblia, foi um processo lento, gradual e acontecia ao mesmo tempo em diversas partes do mundo, não há como pensar em uma mudança drástica dos textos por intuito dos líderes de manipular seus seguidores. Além disso, a Bíblia da forma que ela é hoje é o grande dedo apontado contra as igrejas tanto católica quanto evangélicas. Todos os erros cometidos por essas igrejas são fortemente combatidos na Bíblia. Porque então os líderes religiosos não removeram essas passagens bíblicas que condenam os erros eclesiásticos?

Algo que é possível e, por sua vez, devemos ficar atentos são pequenos erros não intencionais derivados de copistas. O Antigo Testamento passou por inúmeras mudanças de linguagens ao longo de milênios, o que deve ter deixado seus copistas enlouquecidos. Já o Novo Testamento passou por copistas amadores no princípio da igreja, que copiavam os textos voluntariamente conforme a necessidade das igrejas. Eram homens um pouco mais letrados que a maioria que tinham essa árdua tarefa. Só depois de algum tempo é que a igreja passou a separar e preparar homens especialmente para essa função, o que diminuiu bastante o perigo de alteração dos textos.

Existem também as alterações maldosas, muito comuns principalmente entre 50 e 150 AC. Eram gnósticos adulterando cartas paulinas, igrejas adulterando escritos para criar doutrina própria. Era tão comum que vemos muitos escritos dessa época finalizando com uma maldição contra quem adulterava os textos. Exemplo disso é o fim do livro de Apocalipse (Ap 22:18,19), no qual João amaldiçoa quem tentar adulterar o texto.

——–
O texto está grande… mas essa parte é muito necessária para começarmos definitivamente a conversar mais sobre a Bíblia.

***Fontes:***

Jewish Encyclopedia
Catholic Encyclopedia
The Septuagint - Joel Kalvesmaki
O que Jesus disse, o que Jesus não disse - Bart D. Ehrman

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Um papo sobre a Bíblia [1] - o que penso sobre ela?

agosto 12th, 2008 by René Vasconcelos

É com grande alegria que começo essa discussão sobre um dos assuntos mais obscuros do cristianismo: o significado da Bíblia. Vamos discutir diversas passagens bíblicas, como foram originadas, quais as vertentes de pensamento sobre a literalidade da Bíblia, se ela é real, se é tendenciosa, a dúvida quanto aos copistas que copiaram as Escrituras séculos após séculos… enfim, tem uma gama enorme de informações para debatermos e conversarmos.

O cristão atualmente não sabe bem o que pensar sobre a Bíblia. Apesar de muitos afirmarem categoricamente que a Bíblia é a palavra de Deus inspirada e sem um erro sequer, existem passagens que nos remetem ao questionamento e à dúvida. E não são poucas; estudos revelam que existem quase DUAS MIL contradições na Bíblia, sejam elas explícitas ou implícitas. Vejamos apenas dois exemplos:

Êxodo 20:13 - Não matarás
Êxodo 32:27 - aos quais disse: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho.

2 Samuel 24:9 - Deu Joabe ao rei o recenseamento do povo: havia em Israel oitocentos mil homens de guerra, que puxavam da espada; e em Judá eram quinhentos mil.
1 Crônicas 21:5 - Deu Joabe a Davi o recenseamento do povo; havia em Israel um milhão e cem mil homens que puxavam da espada; e em Judá eram quatrocentos e setenta mil homens que puxavam da espada.

Diante dessa constatação o que você deve pensar? Como você deve agir já que existem tantas contradições em um livro que você sempre considerou como verdade absoluta? É exatamente esse o intuito desse papo: mostrar como pensar e refletir sobre a Bíblia, conhecer suas contradições e seu real significado divino.

Vale lembrar que esse é um estudo cristão. Talvez você leia coisas que te escandalizem ou que você não concorde, mas não estarão escritas no intuito de desmentir a Bíblia e sim no intuito de instruir aquele que não sabe ainda o que pensar sobre ela.

Antes de qualquer coisa, vamos pensar; existem diversas linhas de pensamento sobre a Bíblia, porém tomaremos para delinear o nosso estudo as duas principais (liberal e conservadora) e uma linha de pensamento minha própria que venho desenvolvendo já a algum tempo. Vamos ver o que cada uma delas fala:

Teologia liberal: afirma que praticamente nada do que está na Bíblia é literal. As passagens históricas, os oráculos (mensagens de Deus ao povo), quase tudo tem valor simbólico que nos leva à real mensagem do Divino. A inspiração divina está apenas na preservação desses textos e não diretamente na criação deles.

Teologia conservadora: afirma que a Bíblia é a palavra de Deus inspirada diretamente e que não possui erro, discordância ou contradição. Os fatos históricos, os personagens, todos realmente aconteceram e existiram e os oráculos eram realmente provindos diretamente de Deus, do jeitinho letra por letra como está escrito na Bíblia.

Teologia do René: A Bíblia é diretamente inspirada por Deus tanto na criação quanto na preservação dos textos; os fatos históricos realmente aconteceram e os personagens realmente existiram. Porém, por ter sido concebida por mãos humanas, apresenta falhas como imprecisão de dados históricos, textos secundários adicionados ao original e pensamentos do próprio autor. É comparado com a igreja; Jesus veio e nos deixou uma igreja sem sequelas para que cuidássemos mas, com o passar dos anos e a influência humana, essa igreja se tornou algo muito diferente da original que Jesus deixou, mas ainda assim o evangelho do amor de Cristo existe. Assim é a Bíblia; ela realmente foi dada por Deus, porém com a influência humana, ela se tornou algo diferente do original, mas a idéia, a mensagem principal foi preservada por inspiração divina.

Compreendeu as linhas de pensamento? Agora vamos cuidar de outra questão: o que a Bíblia pensa sobre ela mesma?

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” 2 Timóteo 3:16

Hmmm… mas a que escritura Paulo mencionava? Na época não existia a Bíblia, não existiam os Evangelhos e não existiam os livros do Max Lucado. Estaria ele mencionando suas próprias escrituras ou o Pentateuco, única fonte de inspiração divina da época? Ou seria esse texto melhor traduzido da seguinte maneira: “Toda a Escritura inspirada por Deus é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça”? Ficou mais claro? O texto original nos permite perfeitamente essa mudança.

Portanto, preparem-se. Vamos discutir um bocado sobre esse assunto tão necessário e tão evitado pelos mais conservadores.

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O cristão e a política - o que a Bíblia diz

agosto 4th, 2008 by René Vasconcelos

Já faz algum tempo, tenho refletido sobre o papel do cristão na política. Na minha concepção o cristão é muito nulo quando o assunto é exercer seus direitos. Talvez seja culpa daqueles jargões “Jesus é meu advogado” e “Deus sabe de todas as coisas“. Realmente Ele sabe e é seu advogado, mas você tem o direito e o dever de exercer seus direitos como cidadão de uma localidade.

Observando a Bíblia, me lembrei de uma passagem que joga luz a esse assunto. Todo mundo conhece a passagem em que Paulo expulsa o espírito de uma adivinha, na cidade de Filipos na Macedônia, o que enfurece os que lucravam com a menina e causa o açoite e a prisão de Paulo e Silas. No meio da noite tem um terremoto e lá eles conseguem evangelizar os guardas. Mesmo após o terremoto abrir todas as cadeias da prisão, Paulo permaneceu lá aguardando sua carta de soltura, que chegou na manhã seguinte. Acompanhemos o texto a partir daí:

Quando amanheceu, os pretores enviaram oficiais de justiça, com a seguinte ordem: Põe aqueles homens em liberdade.
Então, o carcereiro comunicou a Paulo estas palavras: Os pretores ordenaram que fôsseis postos em liberdade. Agora, pois, saí e ide em paz.
Paulo, porém, lhes replicou: Sem ter havido processo formal contra nós, nos açoitaram publicamente e nos recolheram ao cárcere, sendo nós cidadãos romanos; querem agora, às ocultas, lançar-nos fora? Não será assim; pelo contrário, venham eles e, pessoalmente, nos ponham em liberdade.
Os oficiais de justiça comunicaram isso aos pretores; e estes ficaram possuídos de temor, quando souberam que se tratava de cidadãos romanos.
Então, foram ter com eles e lhes pediram desculpas; e, relaxando-lhes a prisão, rogaram que se retirassem da cidade.
Atos 16:35-39

Vamos fazer algumas observações:

- Pretores eram uma espécie de magistrado, ou seja, juízes da época de dominação romana. Eles condenavam, castigavam ou soltavam, instantaneamente. Esse cargo, somente para nobres, era vitalício e de uma tremenda responsabilidade. Foram eles quem condenaram Paulo e Silas à cadeia e os mandaram soltar na manhã seguinte.

- Existia uma lei romana, a Lex Porcia, que isentava o cidadão romano do açoite e retirava o cargo do pretor que desobedecesse.

Feitas as considerações, vemos que Paulo fez valer os seus direitos como cidadão romano. Os pretores tinham o dever de se desculpar a Paulo e ele fez questão disso. Paulo poderia ter saído da prisão murmurando algo como “o Senhor me vingará“, mas ele bateu o pé e fez com que os pretores temessem pelo que fizeram a ponto deles irem pessoalmente pedir desculpas a Paulo.

Devemos nos espelhar nessa atitude de Paulo. Devemos ser cidadãos conscientes de nossos direitos, conscientes do que os políticos nos devem. Não sejamos omissos nem displicentes com nossos direitos; faça-os valer, não tenha vergonha nem preguiça disso! São direitos dados pelos homens que Deus mostra, através de Sua Palavra, que vale a pena serem preservados. Pensemos nisso!

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Um papo sobre demônios [3] - vivenciando uma possessão

julho 30th, 2008 by René Vasconcelos

Os leitores deste blog já sabem que eu sou muito cético quando o assunto é demônios. Se a Bíblia, em sua grande maioria, busca enaltecer o amor de um Deus por seu povo e dá pouca importância à figura de um ser maligno, porque eu vou dar importância a isso? Para mim a figura do demônio que desafia Deus nada mais é que um misticismo desenvolvido pelos hebreus após a saída do exílio babilônico e ampliado pelo sincretismo católico. Para entender melhor essa linha de pensamento leia toda a série “Um papo sobre demônios“.

Porém, a teoria não é válida se você não a põe em prática; e eu tive a oportunidade de vivenciar - e ter de enfrentar - um caso de possessão. Segue o testemunho de forma reduzida.

Certo domingo, após a igreja, eu estava reunido com amigos numa pizzaria. Minha namorada recebeu o telefonema de um amigo; o pai de um colega estava agindo de maneira estranha, como um animal raivoso e ninguém o conseguia segurar. Tentei orar por telefone, mas só piorei a situação; o homem possesso ficou ainda mais agitado.

Ficou decidido que iríamos até o local, um bairro da periferia de São Paulo, às 11 da noite, para ajudá-los. Fui eu e o Mineiro com a difícil missão de acabar com a possessão. Oramos durante o longo trajeto para que o Senhor nos desse sabedoria para lidar com o que acontecia. No meu ceticismo eu imaginava que aquilo era somente coisa de gente bêbada; eles haviam passado o domingo inteiro bebendo.

Ao chegar no local encontramos uma cena atordoante; diversos homens e rapazes sujos, com roupas rasgadas e muito feridos. Eles haviam tentado segurar o homem possesso sem sucesso. Subimos até a casa pois o possesso, aparentemente já estava melhor; ele estava tomando banho. Conversamos com a família e, quando o homem saiu do banho e nos viu na sala, começou a nos acusar de te-lo agredido e tentou sair da casa. Ao tentar sair da casa ele se jogou no chão e começou a se debater; começava novamente a manifestação.

Eu e o Mineiro seguramos o homem e começamos a clamar pelo nome de Jesus. O possesso gritava que não iríamos tirá-lo de lá, que éramos fracos. Algum tempo e MUITO esforço depois, o homem se acalmou. O levamos para a cozinha e demos café bem forte para ele (eu ainda tinha dúvidas se ele não estava apenas bêbado); tudo parecia bem. Porém no momento em que seu filho, na varanda, aceitou a Jesus, ele começou a manifestar novamente. E dessa vez foi a confirmação de que era muito mais do que apenas bebedeira.

Ele começou a dizer que era apenas um enviado de Deus para ajudar a família. Aquilo me abalou profundamente pois eu sempre acreditei que o diabo fosse um instrumento de Deus para Seus propósitos. E, naquele momento, com a família vendo tudo aquilo, era óbvio que eles se amedrontariam e aceitariam ao Senhor. O que me abalou também foi perceber que aquele homem possesso, um zelador sem muita cultura, com aquela declaração mostrou um profundo conhecimento teológico. Logo após, declarou que iria sair daquele “cavalo” mas que iria atacar outras vidas e tudo aquilo seria em vão. Após pouco tempo o homem se acalmou.

O semblante do homem era visivelmente diferente e o homem que antes gritava como um animal raivoso, se mostrou um homem de voz mansa, calmo. Em lágrimas ele, sua família e os donos da casa aceitaram a Jesus; um total de 5 pessoas. O ambiente da casa era diferente, havia uma enorme paz. Hoje esse homem e sua esposa frequentam frupos de oração e continuam no caminho do Senhor.

Dessa fantástica e terrível experiência tirei a lição de que a teoria pode ser ótima, mas não se compara a viver na prática o que se estuda. Aquele demônio realmente tinha um propósito divino de se manifestar, afinal através daquele evento 5 pessoas aceitaram a Jesus. Percebi que o Senhor realmente havia permitido tudo aquilo com um propósito. E percebi que seu eu, ou o Mineiro, estivéssemos despreparados, aquela noite seria um desastre ao invés de uma benção. Portanto estude, conheça a teoria, mas esteja preparado para viver um cristianismo na prática.

Ps. Umas irmãs assembleianas estiveram na casa do possesso um pouco antes de nós e jogaram alho e sal no homem, tentando retirar o demônio. Vocês acreditam em tamanho despreparo?

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O diabo conhece nossos pensamentos?

julho 30th, 2008 by René Vasconcelos

Semana passada uma leitora me fez a seguinte pergunta:
“O diabo conhece nossos pensamentos?”
A grande maioria dos evangélicos já ouviram que não; o diabo não tem poder de conhecer o que pensamos. Mas quais são as bases bíblicas para tal afirmação?

Estudando um pouco a Bíblia, percebemos que não há uma menção direta sobre essa pergunta, mas existe uma linha de pensamento que podemos seguir através da Palavra. Vejamos os versículos abaixo:

Tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o de coração íntegro e alma voluntária; porque o SENHOR esquadrinha todos os corações e penetra todos os desígnios do pensamento. Se o buscares, ele deixará achar-se por ti; se o deixares, ele te rejeitará para sempre.
I Cr 28:9

Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.
Jr 17:10

Vemos através desses dois versículos que conhecer o pensamento humano é um atributo divino; é o Senhor quem esquadrinha nossos pensamentos. E Deus não divide seus atributos; somente Ele é onipotente, onipresente e, muito relevante para esse caso, ONISCIENTE. Somente Ele conhece todas as coisas e isso inclui os nossos pensamentos; nem anjos, nem demônios conhecem.

Aí você se pergunta: mas como, em diversos casos, vemos o diabo acusando e apontando erros nas pessoas? Aí eu te respondo: tá com consciência pesada, né?

Respire aliviado. Acompanhe o versículo abaixo:

Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus…
João 13:2

Aqui vemos como o diabo age na mente da pessoa; ele a influencia. E se o diabo influencia uma pessoa e essa pessoa nitidamente aceita essa influência, é lógico que o diabo saberá o que se passa na cabeça da pessoa. Não por onisciência, mas simplesmente porque é um pensamento influenciado por ele mesmo. No momento do versículo acima o diabo tinha pleno conhecimento do que se passava na cabeça de Judas porque ele tinha total influência sobre o jovem Iscariotes.

Portanto, agora que sabemos que nossos pensamentos não são abertos ao público e que o diabo conhece apenas os pensamentos influenciados por ele, temos uma máxima a seguir: nunca, jamais sermos influenciados pelo diabo. Mas como não sermos influenciados pelo capiroto coisa ruim? Simples. Começou a pensar algo ruim sobre uma pessoa? Tente mudar esse pensamento. Pensamentos de lascívia? Mude de pensamento. Raiva, indignação, inveja, ciúme? Nem preciso dizer. Fazendo essa gerência sobre nossos próprios pensamentos e sentimentos, pedindo a Deus que nos dê força para evitá-los e buscando a graça do Senhor; dessa forma nos mantemos livres da ingerência maligna.

Agindo assim, não daremos brechas para que o diabo nos acuse e, principalmente, teremos nossos pensamentos limpos do que é corrosivo a nós mesmos.

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Um papo sobre vestes, vaidade e hipocrisia

julho 18th, 2008 by René Vasconcelos

Se há um assunto dentro da igreja, e não importa a denominação, que dá pano para manga é sobre como se vestir e a vaidade. Eu vim de uma igreja Assembléia de Deus tradicional do interior do Rio; lá mulheres somente podiam usar saias e homens, calça comprida. Essa tradição, essa religiosidade, foi o primeiro fator que dispertou meu lado crítico quanto a igreja; onde está na Bíblia tal ordem? Será que é nisso que devemos ser diferenciados do mundo?

Além da falta de alicerce bíblico, essa doutrina religiosa nos traz um enorme malefício: a hipocrisia. Quantas vezes você não viu uma pessoa, tradicionalmente “vestida de crente” agir de maneira condenável e injusta e depois vir se vangloriar por sua santidade estampada em seu modo de vestir? Por se diferenciar do mundo por causa do seu saião e do seu cabelão comprido, logo após de ter criado uma fofoca? Isso é, infelizmente, ainda extremamente comum nas igrejas. Se você frequenta uma igreja moderna, mais entendida e liberal quanto a esse assunto, agradeça a Deus; a grande maioria das igrejas pentecostais no Brasil ainda são extremamente rígidas com esse assunto.

E não só em relação às vestes a religiosidade é implacável; ela ataca também a vaidade em geral. Se a moça passa um batonzinho já é filha de Jezabel! Se o homem faz a sobrancelha é sodomita! E são todos sem espiritualidade nenhuma! Tá amarrado!

Como já falei, essa religiosidade gera hipocrisia, muita hipocrisia. São moças evangélicas se vestindo como biscates escondidas dos pais, simplesmente porque não receberam a devida educação (eu falo educação, não imposição de religião), são líderes evangélicos pregando contra a vaidade enquanto usam ternos caríssimos. Um exemplo claro disso está na pessoa do pregador itinerante Marco Feliciano. Veja o vídeo abaixo, com especial atenção a partir do 2o minuto:

Agora vejam a transformação pela qual ele passou em 2007.

AntesDepoisCategoricamente podemos dizer que não é errado você buscar melhorar a sua aparência; o grande problema é a hipocrisia. Primeiro ele diz que é pecado ser vaidoso e que isso tira a espiritualidade dos jovens. Meses depois aparece totalmente transformado, com lentes claras e cabelo alisado; onde está a coerência da pregação? Essa é a grande hipocrisia; você acaba pregando uma coisa e vivendo outra. Vamos ver o que a Bíblia nos fala sobre vestes e vaidade:

Quero, portanto, que os varões orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem animosidade.
Da mesma sorte, que as mulheres, em traje decente, se ataviem com modéstia e bom senso, não com cabeleira frisada e com ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso,
porém com boas obras (como é próprio às mulheres que professam ser piedosas).
I Tm 2:8-10

Essa passagem fala sobre como o cristão deve se comportar, de maneira geral. Primeiro nos diz que os homens devem ser justos e mansos. E depois mostram como as mulheres devem se diferenciar: pelas suas atitudes, pelas boas obras, e não pelas suas roupas. Paulo fala isso porque, na época, o penteado feminino as diferenciava entre as classes sociais; um penteado frisado era sinal de status. E para que não ouvesse essa diferenciação de classes dentro da igreja, Paulo pede que as mulheres se vistam decentemente e sem muito luxo, para que aquelas que não têm condições de comprar roupas caras não se sintam envergonhadas dentro da igreja. Obviamente isso vale para os homens também. Usar ternos muito caros dentro da igreja talvez deixe seu irmão, que não tem tanta condição, envergonhado ou simplesmente triste por sua condição. Portanto, segundo a Bíblia:

- Devemos nos vestir de maneira decente; decotes, calças muito justas, barriguinha de fora, saias curtas e aquele biquinho ou sunguinha (putz, fala sério!) que arrasa na praia devem ser evitados. Prefiram algo mais comportado. Vale também em relação a maquiagem; cores muito berrantes e fortes não deixam uma aparência decente. Prefira cores leves.

- Sabe aquele vestido e aquele colar carésimos que você ia usar para a festa da igreja? Ou aquele terno super caro que você comprou para pregar? Prefira algo mais simples; não feio, apenas simples. Porque pode ter um irmão ou irmã do seu lado que esteja passando por dificuldades e que pode se sentir frustrado. É nosso DEVER como cristãos evitar esse tipo de sentimento na pessoa ao lado.

- Você deve se diferenciar do mundo pelos seus atos, não simplesmente por suas vestes! Deixe que as pessoas te reconheça como cristão não por suas roupas mas pelo seu testemunho de vida!

Por isso, conheça a Bíblia, conheça os fundamentos de cada doutrina para você saiba exatamente no que crê. Deus não olha para roupas, mas para um coração fiel e contrito a Ele. Pense nisso antes de condenar alguém.

Ps. Eu lembro que estou proibido de falar no pr. Marco Feliciano. Só utilizei seu nome como exemplo ao argumento do texto na questão da hipocrisia, não como crítica direta.

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Um papo sobre a idolatria

julho 14th, 2008 by René Vasconcelos

Portanto, dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniqüidade, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos;
para que eu possa apanhar a casa de Israel no seu próprio coração, porquanto todos se apartaram de mim para seguirem os seus ídolos.
Ez 14:4,5

Idolatria ainda é um assunto delicado. A primeira coisa que nos vem a cabeça é a imagem de um ídolo católico ou a adoração à vaca na Índia. Porém, devemos saber que o evangélico é um dos povos mais idólatras na atualidade; e vamos saber o porquê.

Primeiro vamos entender o que é idolatria. O ato de idolatrar é transferir atributos e poderes divinos a qualquer coisa que não seja Deus. Ou seja, se você acha que uma imagem de Nossa Senhora, mesmo como memorial, possa vir a curar algum mal, é idolatria. Se você acha que vai ter um dia ruim por sair de casa sem aquela correntinha que você acha que te dá sorte, é idolatria. Se você acha que um animal, como uma vaca ou um rato, não pode ser morto por ser divino, é idolatria. Se você acha que uma pessoa em especial vai te proporcionar maior possibilidade de obter uma cura ou uma profecia, mesmo que use o nome de Deus no meio, também é idolatria.

Ídolo de carneE dar atributos divinos a um homem é prática comum no meio evangélico. Hoje em dia se idolatra bispo X porque ele cura com o suor. Ou apóstolo Y porque ele promove curas online através da internet. Até mesmo o abençoado Z que promove avivamentos relâmpagos porque ele acha que tem “crédito no céu”. São inúmeros os “profetas” e “ungidos” venerados como verdadeiros santos por serem considerados um atalho para Deus. Esses ídolos são considerados intocáveis, inabaláveis e suas palavras são indiscutíveis para quem os idolatra. E muitos, inúmeros evangélicos idolatram ídolos de carne e osso e se esquecem de seguir o único que é inabalável e incorruptível: Deus.

Ídolo de carneA partir do momento que a pessoa começa a seguir um ídolo, ela passa a se espelhar nele e a seguir o que ele diz. Com o tempo, a Bíblia vai ficando de lado porque não precisa dela, afinal o ídolo de carne já a “explica” da maneira como convém direitinho aos seus idólatras. Não se precisa mais de Deus diretamente, não se precisa mais da Palavra, porque já existe uma pessoa que, supostamente, é uma ponte garantida para Deus. Isso gera uma certa independência de Deus; você já tem o seu ídolo, o seu atalho consigo.

Essa idolatria cria inúmeros problemas e um deles é o apoio da vida espiritual sobre pessoas que não são infalíveis. Até parecem, mas não são. Parecem porque um ídolo de carne vai querer transparecer perfeição até o errar; aí ele vai pedir desculpas em público dizendo que errou porque era humano e falível.

Ídolo de carneOutro ponto é: somos nós quem criamos os ídolos. Nós quem atribuimos a eles as características de semi-deuses que desejamos. Portanto, esses ídolos de carne irão falar o que nós queremos escutar; afinal nós somos seus criadores. Eles farão de tudo para arrebanhar mais idólatras e isso, dentro de uma igreja, é um câncer. Os idólatras evangélicos acreditarão cada vez mais nas “verdades” que todos querem ouvir que os ídolos pregam e a verdade de Jesus Cristo, que é amarga, literalmente espinhosa e difícil de ser praticada, vai ficando absoleta, esquecida.

É exatamente isso o que nos diz o versículo citado; o povo de Deus se afasta dEle por seguirem seus próprios ídolos. Raramente se busca fervorosamente a Deus em suas casas; antes buscam a oração de um ídolo de carne. Não se busca resposta de um problema diretamente com Deus; busca-se respostas através dos lábios de um ídolo de carne. E Deus nos responde, através da atual situação da igreja, o que acontece quando se busca a ídolos e não a Ele: corrupção na igreja, ganância, mentira, enganação, hipocrisia.

Deixemos os ídolos de carne de lado. Adoremos e sigamos ao Senhor que é o único realmente digno de nossa adoração.

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Um papo sobre a santa ceia

julho 10th, 2008 by René Vasconcelos

Pintura da última ceiaHoje vamos conversar sobre a prática de uma das mais conhecidas tradições da igreja cristã: a santa ceia ou a eucaristia. Você já sentiu dúvidas sobre o texto de I Coríntios 11, a base bíblica para essa tradição? Esse ritual era o que Jesus realmente queria para lembrar de sua morte? Vamos conhecer o texto de I Coríntios 11 versículo por versículo, vamos lembrar das palavras de Jesus em sua última ceia, vamos corrigir erros históricos da nossa visão e, principalmente, vamos conhecer o verdadeiro significado da ceia do Senhor. Separe um tempo para o estudo, pegue sua Bíblia e vamos conhecer melhor a nossa fé!

Situação histórica:
Na região de Coríntios acontecia anualmente a festa Ágape que consistia em cada membro da igreja (estamos aqui falando somente de homens) levar uma porção dobrada de comida e vinho para ser partilhada com pessoas famintas numa ceia festiva. Essa festa se tornou em uma festa que simbolizava a última ceia de Cristo. O problema é que haviam homens nessa igreja que acreditavam que os famintos estavam nessa condição por serem pecadores e, por isso, não era dignos de serem alimentados. Então esses homens avarentos comiam, em secreto antes da ceia, as porções de comida e vinho a mais que seriam destinadas aos famintos; eles se fartavam e se embebedavam com a comida a mais, simplesmente para não deixar alimentar os pobres, que eles consideravam pecadores. Isso causou muita dissenção entre os membros que queriam fazer caridade aos famintos e os que acreditavam ser a fome um castigo aos pecadores.

Leitura bíblica versículo a versículo:
PauloPrimeiro devemos lembrar que Coríntios I e II são duas cartas escritas por Paulo e enviadas à igreja de Coríntios para manutenção da fé, exortações diversas e correções de doutrina. Agora vamos fazer uma leitura do texto de Coríntios 11 desde o princípio:

Ver 2: De fato, eu vos louvo porque, em tudo, vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei.
O capítulo começa com um singelo elogio, preparando o texto para a exortação que está por vir.

Ver 17: Nisto, porém, que vos prescrevo, não vos louvo, porquanto vos ajuntais não para melhor, e sim para pior.
Aqui Paulo nos mostra o verdadeiro conteúdo dos versículos adiante: uma bronca pela falta de amor demonstrada na festa Ágape.

Ver 18: Porque, antes de tudo, estou informado haver divisões entre vós quando vos reunis na igreja; e eu, em parte, o creio.
Ver 19: Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio.
Paulo nos mostra que a diferença de idéias é sadia até mesmo na Igreja. Algo muito importante para os dias de hoje, em que a igreja prefere impor cabrestros aos invés de discernir os melhores pensamentos.

Ver 20: Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis.
Pois como pode ser a ceia do Senhor sem o mínimo amor para com o próximo?

Ver 21: Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague.
Paulo começa a exortar os que comiam escondidos; eles se embriagavam com tanto vinho enquanto outros padeciam de fome.

Ver 22: Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo.
Literalmente: isso tudo é fome? Vocês não têm comida em casa? Precisam mesmo demonstrar tamanha gula?

Ver 23: Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão;
Ver 24: e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim.
Ver 25: Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.
Estes versículos vamos estudar mais adiante.

Ver 26: Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha.
Todas as vezes que os membros participavam dessa festividade e compartilhavam o pão era uma homenagem ao sacrifício de Cristo ao doar sua vida pelo mundo.

Ver 27: Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor.
Portanto, quem transforma uma homenagem de amor em discórdia e avareza será punido por seu ato.

Ver 28: Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice;
Ver 29: pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si.
Logo, que se arrependam os que tratam com avareza o seu próximo e que não corrompam mais a ceia para que não sejam condenados.

Ver 30: Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem.
Esse versículo cita literalmente os fracos por fome e miséria. Por causa da avareza de uns, muitos padecem de fome.

Ver 31: Porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados.
Ver 32: Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.
Os avarentos observam essa realidade de fome e miséria e não se culpam por não ajudar os necessitados. Mas o Senhor repreende com amor para que não voltem a errar.

Ver 33: Assim, pois, irmãos meus, quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros.
Ver 34: Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter convosco.
E aqui a conclusão do propósito do texto: os avarentos deveriam comer e partilhar a comida e o vinho com todos para que não fossem condenados por seus atos.

Agora vamos comentar os versículos 23, 24 e 25. Esse versículos citam a noite da última ceia; vamos ao texto direto dessa cena, em Mateus 26:26-28:

Ver 26: Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo.
Percebam que Jesus, neste versículo, esperou os discípulos começarem a comer e dividiu a SUA porção de pão entre seus discípulos. Ele deixou de comer aquele pedaço de pão para compartilhar entre seus irmãos.

Ver 27: A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos;
Ver 28: porque isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.
Em seguida ele divide o vinho, mostrando que ele não compartilharia apenas o pão, mas daria a sua própria vida, seu próprio sangue, a nós, para que pudéssemos ser salvos.

Juntando essa cena com os versículos 23, 24 e 25 de I Coríntios 11, vemos que Cristo no ordena partilhar o pão e nos dedicarmos ao próximo em memória dEle. Se não houver esse amor, essa dedicação ao aflito, não há ceia do Senhor, não há a memória do amor de Jesus. Por isso Paulo condena a falta de amor na comemoração.

Se não houver amor, de nada adianta você sentar todo primeiro sábado na igreja e tomar um copo de suco de uva e um pedaço de pão. Se não houver o sacrifício da doação, o amor pelos que estão famintos enquanto nada lhe falta, não adianta a ceia. É por isso que muitas igrejas promovem a doação de 1kg de alimento não perecível de cada membro toda a ceia; pois seus líderes sabem que sem amor, sem compartilhar o pão, não há a honra nem a memória de Cristo. Pense nisso na próxima vez que participar da ceia do Senhor.

Curiosidade:
A ceia do Senhor e a festa ágape foram desassociadas por Plínio no século II. Todo esse conceito que temos hoje de ceia, sem o partilhar o pão com famintos, com suco de uva e pão, tendo que pedir perdão pelos pecados ao pastor e somente para batizados nasceu com Cipriano, por volta de 240DC.

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Moisés não existiu mesmo?!

junho 4th, 2008 by René Vasconcelos

Para os leitores deste blog, não é novidade o meu gosto pelo canal The History Channel. Não apenas gosto, mas também recomendo a todo aquele que deseja conhecer um pouco mais sobre história. E ontem, durante a tarde, passou por lá um documentário que me deixou boquiaberto: O Êxodo Decifrado.

Neste interessantíssimo documentário, arqueólogos, cientistas e professores explicavam de maneira científica (obviamente) como aconteceram as dez pragas do Egito, a abertura do mar vermelho (a melhor explicação que já ouvi, e olha que já estudei dezenas delas!), enfim, todo o contexto do Êxodo. Abaixo segue alguns textos interessantes do documentário, um vídeo de dez minutos com uma fantástica busca por provas do Êxodo, extraído desse mesmo documentário.

Deus não se opôs à natureza que Ele mesmo criou. Ele simplesmente a manipulou em benefício do povo hebreu.

Descobrimos uma rocha com inscrições egípcias que datam de época aproximada à data estimada do Êxodo. Nesse texto estava descrito um líder dos hebreus como Príncipe do Deserto e dois símbolos que juntos significavam “águas divididas” (algo similar a VVVV //).

Coluna de fogo devido a uma ruptura de solo e escape de gás natural

Após a passagem através do mar de juncos (o que nós chamamos erroneamente de mar morto), os hebreus chegaram a um terreno que, em seu subsolo, era rico em gás natural e petróleo. Devido ao tremor de terra que proporcionou o surgimento de uma plataforma seca em meio ao mar de juncos, esse terreno ficou repleto de rupturas no solo, que criavam colunas de fogo provenientes do escape de gás natural. Durante o dia essas rupturas parecem colunas de fumaça e, durante a noite, colunas de fogo. O povo hebreu provavelmente seguiu essas diversas colunas no solo (em apenas uma planície podem haver mais de 300 rupturas).

Abaixo um vídeo com 10 minutos do documentário. Vale a pena conferir:

[update]Para quem quiser ver ou fazer o download do documentário completo (90min) basta clicar aqui. Vale a pena para quem deseja se aprofundar na história do Êxodo e é muito melhor do que a novela das oito.
Esse link foi uma indicação do Wilson; muito obrigado!
[update]

E para terminar, uma fala de um dos historiadores que me chamou a atenção:

Existem muitos cientistas céticos quanto a veracidade da Bíblia; e eles não são céticos simplesmente porque procuram uma verdade científica. Eles são céticos porque se eles admitirem que a Bíblia é verdade, com todas as provas que temos, logo terão que admitir que Deus existe.

Aí eu pergunto: Moisés não existiu mesmo?! Ou os cientistas que estão tomando muito chá de Daime?

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Um papo sobre demônios [2] - a novela mexicana celestial

maio 28th, 2008 by René Vasconcelos

Certas tradições cristãs são oriundas de interpretações das Escrituras. Muitas dessas tradições, apesar de ainda serem praticadas, vieram de interpretações grosseiras e tendenciosas, ou simplesmente erradas por falta de conhecimento profundo do hebraico.

Arcanjo Miguel pisando no capirotoUma dessas tradições mais conhecidas e difundidas entre os cristãos se refere a criação do mal. Você já parou para pensar quais as bases bíblicas utilizadas para o desenvolvimento dessa história? O que levou os teólogos da época - e até os dias atuais - a acreditar, apoiar e ensinar essa tradição? Nesse post vamos discutir e conversar sobre a revolta de “Lúcifer”, para que todos possam refletir um pouco mais sobre sua própria fé. O post está enorme, mas vale a pena dar uma lida.

Antes vamos conhecer melhor a história da queda do demônio. Além de ser maestro do coral de anjos, “Lúcifer” também era o mais belo entre todos os anjos. Porém ele, dentro de si, criou uma profunda inveja de Deus que o fez desejar Seu trono. Então “Lúcifer” armou um motim, aliciando um terço dos anjos contra Deus. Nessa batalha épica e sangrenta, ele foi vencido pelo arcanjo Miguel e precipitado para o abismo com um terço dos anjos, para um castigo eterno de fogo e maldade.

Agora vamos entender melhor o que leva a interpretação teológica a originar essa novela mexicana celestial e quais os fundamentos bíblicos para ela:

- Isaías 14:12-15
Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e no monte da congregação me assentarei, aos lados do norte.
Subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo levado serás ao inferno, ao mais profundo do abismo.

Nesta mensagem ao rei da Babilônia, teólogos achararam o desejo de “Lúcifer” de se igualar a Deus.

- Ezequiel 28:12-19
Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.
Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônia, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.
Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.
Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas.
Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti.
Pela multidão das tuas iniqüidades, pela injustiça do teu comércio profanaste os teus santuários; eu, pois, fiz sair do meio de ti um fogo, que te consumiu e te tornei em cinza sobre a terra, aos olhos de todos os que te vêem.
Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá.

Os teólogos acreditam que essa é uma descrição, uma alegoria, à pessoa de “Lúcifer”. Aqui vemos a parte da formosura e do fato dele ser regente do coral de anjos, por utilizar um pífaro. Pífaro, antes da criação das notas musicais, era uma flautinha militar de notas simples que dava o tom à música, logo, utilizado pelos regentes.

- Apocalipse 12:7-9
E houve batalha no céu; Miguel e os seus anjos batalhavam contra o dragão, e batalhavam o dragão e os seus anjos;
Mas não prevaleceram, nem mais o seu lugar se achou nos céus.
E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele.

Nesta profecia, estudiosos acharam a participação do arcanjo Miguel na queda de “Lúcifer”.

- Lucas 10:18
E disse-lhes [Jesus]: Eu via Satanás, como raio, cair do céu.
Nesse texto o próprio Jesus parece afirmar que viu a queda de “Lúcifer”.

Juntou as peças da novela? Viu como se faz uma análise teológica da Bíblia juntando passagens bíblicas? Porém essa tradição contém inúmeros pontos obscuros e poderemos refletir sobre eles:

- O nome Lúcifer:
Esse aí foi o fator que gerou toda a tradição. Se lembra de Isaías 14:12 citado no texto?

Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!

Pois bem, na primeira tradução oficial da Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata Latina, traduzida por São Jeronimo, esse mesmo versículo ficava assim:

Como caíste desde o céu, ó Lúcifer, brilhante pela manhã! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!

São Jerooooonimo!Diferente, né?
São Jeronimo simplesmente fez a borrada de entender estrela da manhã como nome próprio. A palavra lúcifer, no latim, significa “aquele que leva a luz” e era até mesmo utilizada como um adjetivo para Jesus nas igrejas antigas. O engraçado é que São Jeronimo, na época da tradução, teve um desentendimento com uma personalidade católica chamado São Lucifer. Vai ver Jeronimo tirou uma da cara de seu desafeto ao fazer essa tradução.

- As palavras em Isaías
Enquanto os teólogos acham que essa palavra tem sentido duplo, dentro do contexto ela tem destinatário certo, como vemos em Isaías 14:4.

Então proferirás este provérbio contra o rei de Babilônia, e dirás: Como já cessou o opressor, como já cessou a cidade dourada!

- As palavras em Ezequiel
Outro texto com destinatário certo (o rei de Tiro), mas com texto um pouco mais obscuro. O grande problema é a utilização das expressões Éden, querubim e lugares altos. Alguns teólogos dizem que é uma analogia à queda de Adão.

- As palavras em Apocalipse
Aquilo é uma profecia! PROFECIA! Ainda não aconteceu!

- As palavras de Jesus
Jesus aparece falando no tempo futuro, mais precisamente no futuro do pretérito, em conformidade com a profecia vista por João em Apocalipse. Portanto, é mais uma profecia da futura queda definitiva do mal do que uma revelação.

- A criação do mal
Em Isaías 45:7 Deus diz que Ele criou todas as coisas. Portanto, apesar de ser bom, o mal também foi criado por Ele e não gerado em um anjo. Apesar de não entendermos o porquê de Deus ter criado o mal, devemos crer em sua justiça ilimitada e no propósito justo de toda a criação.

Nós, como seres humanos, temos a necessidade de deduzir certas coisas de forma que seja comum aos nossos olhos; por isso a existência dessa tradição e de tantas outras. Novelas intricadas de acontecimentos e atitudes que são comuns aos seres humanos. Porém as coisas concernentes a Deus e suas criações são muito mais complexas que simples novelas mexicanas. Estamos acostumados a tentar minimizar a complexidade da sabedoria divina e seu universo para que possamos compreende-la.

Ao invés de criarmos e tentarmos explicar universos paralelos, guerreiros das trevas, da luz, organizações secretas, etc, foquemos no que podemos entender, mudar e ensinar: o amor de Cristo pregado numa cruz, o apoio ao próximo, o perdão. Deixe as novelas para serem exclarecidas quando chegar o último capítulo.

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Um papo sobre demônios [1] - O Antigo Testamento

abril 23rd, 2008 by Rene

Acompanhe esse texto utilizando a Bíblia OnLine para ler as referências bíblicas.

O cristianismo sempre possuiu uma marca: a diferenciação evidente entre bem e mal, certo e errado, benção e maldição, personificadas através de duas estruturas: Deus e seus anjos como o bem e satanás e seus demônios como o mal; um reino dividido meio-a-meio, com cada parte tendo domínio sobre seus seguidores. Esse pensamento facilita bastante o pensamento e a filosofia cristã, porém nem sempre é o modo correto de encarar as coisas. Seria o diabo um mito, já que o Antigo Testamento mal cita ele? Seria uma invenção do homem para aliviar a tensão de pensar num Deus que pune nossos erros? Ou um meio de escape para culparmos alguém por esses mesmos erros? Seria o diabo um assistente direto de Deus, sob Suas ordens? Ou seria ele mesmo um príncipe das trevas, alguém com poder e petulância o suficiente para confrontar o próprio Deus frente a frente?

Ao contrário do que muitos pensam, o diabo é citado por diversas vezes no Antigo Testamento. Como o Espírito Santo e, consequentemente, a revelação do espiritual, era na época limitada para pessoas específicas, o diabo foi realmente muito pouco citado. E, em todas as citações, vemos uma extrema submissão do agir do diabo aos propósitos de Deus.

Em primeiro lugar, o povo hebreu não pensava em demônios como nós pensamos. Para eles, demônios nada mais eram que espíritos avulsos enviados por Deus para uma certa punição. Quem abençoava ou amaldiçoava era Deus e ponto final; dEle era a justiça e a condenação. Não existia ação de demônios tentando contra Deus; para eles era inconcebível a idéia de um ser pensar em se opor ao Senhor Todo Poderoso. Vemos isso claramente em IS 45:6,7:

“Para que se saiba, até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; Eu sou o Senhor e não há outro. Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; Eu, o Senhor, faço todas estas coisas.”
O que você pensa sobre esse conceito?

Então, no Antigo Testamento, temos o conceito de demônios como espíritos específicos extremamente obedientes à vontade de Deus. Agiam somente sob Sua permissão, somente sob o Seu mando. Vamos citar alguns casos bem conhecidos da ação desses espíritos, prestando atenção que era sempre sob a ordem de Deus:

- (Is 13:21 / 34:14) Isaías cita um ser, o sátiro, do hebreu setrim (cabeludo, bode). Em Levíticos 17:7 essa palavra é utilizada significando “demônio”. Esse demônio em Isaías é citado significando uma maldição local, um demônio territorial, um sinal de vergonha da terra, primeiro contra o sítio da Babilônia, segundo como uma ameaça a Israel.
Vale lembrar que, por causa desse demônio citado em Isaías, os árabes evitam até hoje os locais dessas ruínas.
Observemos que a ação dos sátiros em amaldiçoar uma localidade é limitada à ordem do Senhor; clara evidência da vassalagem dos sátiros em relação a Deus.

- (1Sm 16:23) Samuel cita um espírito que era enviado por Deus para atormentar Saul e que se retirava dele quando Davi dedilhava sua harpa.

- (Ex 12:23) Na história da saída do povo hebreu do Egito, a última praga tem um nome: O Destruidor. Ele retira vidas humanas, agindo como uma peste instantânea. Ele é citado também 2Sm 24:15,16, dessa vez como Anjo Destruidor. Um espírito que age como punidor e destruidor, agente direto da ordem de Deus. Chamá-lo de anjo ou demônio não muda a sua função; aos olhos dos homens ele levava maldição, destruição e morte, a mando do Senhor.
Muito poderoso, a ação dele é possivelmente vista em 2Re 19:35, matando 185.000 assírios numa só noite!

- (2Cr 18:18-22) Um espírito de engano se apresenta diante do Senhor para ir e enganar o rei Josafá, agindo como mentira através das bocas de seus profetas. Deus permite a ação desse demônio mentiroso e engana Josafá. Uma cena, no mínimo, intrigante: Deus pergunta quem se proporia a enganar Josafá. Esse espírito enganador, que estava na presença de Deus se propõe e recebe autorização para enganar os profetas. Ou seja, o demônio da mentira estava na presença de Deus a espera de uma ordem.

Ps. Não levei em consideração nenhuma mitologia hebraica (como Azazel), nenhuma escritura rabínica-judaica, nem Jó, por considerar a participação do diabo um acréscimo ao livro original, feito por Esdras pós-exílio. E você, o que pensa sobre a participação do diabo em Jó?

Verificamos hoje que os hebreus consideravam a existência dos demônios e os tratavam como instrumentos da vontade de Deus como punição e maldição aos homens; eles eram cruéis e poderosos, mas também eram nulos perante a vontade de Deus. Muito diferente de como lidamos com a figura do diabo atualmente, o culpando por todos e quaisquer problemas que tenhamos. Ao invés disso, deveríamos ponderar sobre quais atitudes nossas estão propiciando as ações do diabo, o que Deus quer nos ensinar através dele, e que precisamos consertar para Deus parar as ações do diabo. E você, que opinião possui sobre a ação do diabo na vida das pessoas? Comentem!

No próximo capítulo dessa série, discutiremos sobre o surgimento da figura do diabo; ele desafiou a Deus? Caiu do céu com um terço dos anjos? Era o anjo mais bonito e maestro do coral de anjos?!

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Descartes e a evidência de Deus

abril 14th, 2008 by Rene

Falar sobre ciência e a existência de Deus nunca foi algo fácil. A ciência busca encontrar uma forma de explicar o mundo sem utilizar a religião. Já a religião busca defender a sua fé de modo que não venha a ser considerada tolice. Atualmente, a união desses dois “lados da conversa” tem dado frutos muito bons. Mês passado o cientista polonês Michael Keller ganhou um respeitado prêmio por sua teoria, que praticamente originou a “Teologia da Ciência” e que, em sua premissa, afirma que a ciência encontrou a existência de Deus. Para ler mais sobre Keller e sua teoria, clique aqui.

Porém discutir Deus e ciência não é coisa nova. Diversos grandes pensadores da história já publicaram seus pensamentos a respeito da existência - ou não - de Deus. Dentre os mais conhecidos está Einstein, no qual já falamos nesse blog (não leu? clique aqui!). Hoje falaremos a respeito de Rene Descartes e seu interessante pensamento sobre a existência de Deus.

Descartes, francês de família nobre, estudou no colégio jesuíta La Flèche. Já no colégio ele se sentia incomodado; muitas hipóteses, muitos poréns e poucas certezas. A única certeza ensinada no colégio era a matemática; 2+2=4 sem sombra de dúvidas. Todo o restante era um monte de achismos, filosofias e teorias. Essa inquietação levou Descartes a desejar criar um método que unisse a verdade da matemática com as incertezas da vida. Ele criou grandes teorias matemáticas e geométricas, dentre eles o conhecidíssimo “plano cartesiano”. Se tornou conhecido entre reis e rainhas, generais e pensadores.

Em 1637 Descartes publicou três pequenas obras e um famosíssimo prefácio delas: “Discurso sobre o Método” no qual ele afirma vigorosamente que é capaz de provar a existência de Deus. Descartes era católico, não muito praticante, mas tinha suas raízes no colégio jesuíta. E nessa interessantíssima obra, ele faz um círculo que leva a pessoa do questionamento a Deus.

Primeiro ele diz que para existir um rigor matemático sobre as coisas são necessárias diversas regras, dentre elas a evidência. A evidência não admite nenhuma coisa como verdadeira se não a reconhece evidentemente como tal, com provas que saltem aos olhos. À primeira vista, isso parece uma negação de Deus; como alguém pode dizer Deus como verdade se não existem provas concretas de sua existência?

Porém, na continuação de sua obra, ele afirma - e isso é uma jogada de mestre - que não é possível uma pessoa imperfeita pensar em algo que seja perfeito ou infinito, ou seja, Deus, sem que um ser Perfeito tenha inspirado esse pensamento. Você, ser humano imperfeito, não consegue produzir algo que funcione perfeitamente bem sem a presença de um ser Perfeito a te inspirar. Você, ser humano limitado, não poderia imaginar ou especular que existe um Deus sem a presença desse Deus a te inspirar esse pensamento. Brilhante!

Esse pensamento nos leva a um círculo vicioso: a evidência nos leva a Deus que nos garante a evidência. Ou seja, nossos pensamentos, nossos estudos, nos levam a Deus que, por sua vez, nos garante a possibilidade de pensar e estudar sobre Ele. Primeiro, Descartes nos leva a duvidar de tudo o que não seja plausível e, depois, ele nos mostra que é impossível questionar a existência de Deus pois, se você pensa nEle, é porque Ele permite.

Por isso, você evangélico ou não, questione. Questione o que é certo ou errado em suas igrejas. Questione se a sua própria vida está como deveria estar. Questione se os conselhos que você ouve está conforme diz a Bíblia. Questione, questione, questione! Mas nunca de forma a afrontar, mas sempre com o intuito de aprender. Assim, dessa forma, você estará mostrando a evidência da existência de Deus, dita por Descartes: a sua possibilidade de questionar e aprender mais de Deus!

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