Histórias de um hospital [2]
janeiro 10th, 2008 por Rene
Continuação das crônicas de capelania no hospital São Paulo.
Certa noite, já no hospital São Paulo, colocando o jaleco para evangelizar, comecei a pensar sobre como estava minha vida. Eu estava sendo humilhado no trabalho, salário atrasado, contas pendentes e um certo problema na família. Comecei a pensar que eu não tinha motivos para estar ali evangelizando, falando que Deus é bom, do Seu amor. Pensei que, como eu poderia falar da bondade de Deus se eu não a havia experimentado durante a semana, durante todo aquele dia? Mesmo com esse pensamento, andando triste, desci em dupla para evangelizar o oitavo andar do hospital; eu estava disposto a “fazer um esforço” para evangelizar.
Chegando ao oitavo andar, uma surpresa: só tinha um quarto ocupado - o hospital estava em greve parcial. E no único quarto ocupado, o paciente estava dormindo. Como não podíamos ir a outro andar sem avisar, decidimos descer até o pronto-socorro. Chegamos lá e encontramos aquele lugar numa tremenda correria; faltavam médicos, sobravam pacientes. Tanto os quartos de observação quanto os corredores estavam cheios de pacientes. A irmã que estava evangelizando comigo entrou no quarto de observação feminino e eu entraria no masculino. Antes de entrar, reparei, em meio às dezenas de pessoas no corredor, numa menina, de seus 20 anos, sentada numa cadeira de rodas com sua mãe atrás; ela parecia sentir muita dor. Quando entrei no quarto masculino, mais uma desagradável surpresa: alguns médicos estavam dando aula (é um hospital-faculdade) e eu não pude entrar para evangelizar.
Quando eu voltei para o corredor eu comecei a me questionar: “Deus só pode estar brincando! Saio de casa depois de um dia inteiro de problemas, venho pra evangelizar e mal consigo falar com uma só pessoa! Deus deve ter se esquecido do meu esforço!” E enquanto eu me questionava, voltei a reparar naquela menina sentada na cadeira de rodas; ela ainda parecia sentir muita dor e sua mãe se esforçava para chamar a atenção de algum dos médicos que passavam pra lá e pra cá no corredor, mas sem sucesso. O pronto-socorro estava movimentado demais para se conseguir a atenção de algum médico; nós da capelania nunca visitávamos o pronto-socorro por esse motivo, mas naquela noite, fomos forçados a descer até lá por não haverem pacientes no oitavo andar.
Eu comecei a andar pelo corredor, decepcionado com o evangelismo, decepcionado com o rumo que minha vida estava levando, esperando a minha parceira de evangelismo sair do quarto das mulheres; sempre incomodado com aquela menina na cadeira de rodas. Decidi ir até ela. Quando me aproximei dela, sua mãe veio em minha direção, provavelmente pensando que eu era um médico. Me apresentei dizendo que era da capelania evangélica do hospital e, ao dizer isso, a menina na cadeira de rodas começou a chorar. “Eu sou evangélica, mas estou aqui sozinha! Eu acabei de pensar que Deus tinha me abandonado” disse ela aos prantos. Naquele momento eu entendi a vontade do Senhor, que eu não tinha entendido ainda: não achamos nenhum paciente no oitavo andar, não consegui entrar no quarto de observação masculino, só para que eu pudesse estar no corredor do PS para falar com aquela menina.
“Olha, então Deus te ouviu, porque é muito difícil estarmos aqui no PS; Deus moveu só para que eu estivesse aqui e te dizer que você nunca está sozinha” afirmei para ela. Nesse momento mãe e filha começaram a chorar - a filha era evangélica, mas a mãe não. Falei do amor de Deus, e fizemos uma oração ali no corredor mesmo, pois a menina estava sentindo muita dor no estômago, a ponto de não conseguir ficar de pé. Chamei uma enfermeira para ajudá-las e me despedi, com a mãe a me afirmar que passaria a acompanhar a filha à igreja. Voltei para a casa renovado, sem lembrar dos meus problemas e feliz por ter sido usado mais uma vez.
Aquela noite serviu de lição tanto para a menina, quanto para mim. Deus não nos deixa sozinhos, jamais. Quando pensamos que o Senhor se esqueceu de nós, Ele dá um jeito de mostrar que estamos errados. Que nós possamos lembrar disso nos momentos em que nos sentimos mais desamparados.
Postado em quinta-feira, janeiro 10th, 2008 at 3:16 pm e salvo na categoria Reflexões. Você pode obter quaisquer respostas do post através de RSS 2.0 RSS. Você pode deixar um comentário, ou rastreá-lo a partir do seu site.

janeiro 11th, 2008 em 11:50 am
benção. lembro deste dia. O Senhor operou fortemente lá comigo também, várias pessoas se renderam a Cristo naquele dia.
Abraço.
janeiro 11th, 2008 em 6:49 pm
Õ rené… posso falar que chorei aqui ao ler teu post! nessas horas teologia nenhuma tem fundamento, tudo é vago que se exploda tudo! quando eu sinto isso… eu me lembro do dia que me entreguei ao senhor…. você descreveu tudo como se eu estivesse ali do lado… obrigado por isso!
janeiro 11th, 2008 em 7:29 pm
Olá Fabrício!
Fico feliz que vc tenha gostado do texto; não é o tipo de texto que o povo pare para ler em um blog, mas compõe bem e atmosfera do que vivo… uma balança entre teologia e vida cristã prática. Por isso a brincadeira do nome Papo de Téologo Assembleiano. É uma balança porque você pode estudar, se dedicar, mas nunca vai chegar a conseguir explicar algo sobre Deus; no máximo vc vai entender seu mover por causa da Bíblia, mais nada. Talvez Deus não goste de pessoas investigando os porquês de Seus atos.
Aí, nessa hora, a teologia e seus fundamentos caem e o Espírito Santo se revela sobre todo e qualquer conhecimento. Para o cristão atual, pesar estudo e Espírito é fundamental!
Um abraço, fica na paz!
René
janeiro 26th, 2008 em 9:49 am
Hj estava navegando na rede à procura de resposta. Pedia a Deus para falar comigo, pois por alguns momentos me sentia como vc, no hospital sem entender o proposito de Deus para aquele momento. Ler este testemunho me fortalece, e aumenta minha fé. Fui grandemente abençoada através deste. Obrigado!
janeiro 28th, 2008 em 4:09 pm
Paz do Senhor!!
na verdade,sou da igreja Pentecostal…
e,sendo ainda mais sincera,nem sei postar ou entrar assim em sites…ai meu Deus!!
bom…fuçando aqui,porquê sou uma das pessoas q mais têm dúvidas no mundo…hehe,acabei encontrando esse testemunho…
agradeço muito por ele!!!
glória a Deus,porque não se encontra mais quem se disponibilize a fazer tal coisa…é tão raro alguém falar de Deus e realmente seguir o caminho d’Ele…
o Ministério q frequento está passando um momento crítico…e sou a única convertida aqui em casa…bom…o único local q tenho a recorrer é à internet…e esse testemunho me fez sentir verdadeiramente o amor d Deus…agradeço a Ele…e à esse site…
que ainda tem muito a abençoar!!!
outubro 25th, 2008 em 11:43 pm
Muito legal essa experiência. Foi uma bênção e serviu de lição pra vc, pra garota e pra nós que estamos lendo aqui. Eu paro pra pensar sobre ingratidão muitas vezes. Me sinto sozinho, mas não falta comida, roupa, estudo em escola boa. Uma coisa que eu venho percebendo (acredito não ser regra, pois Deus faz as coisas como quer e quando Ele quer) é que, muitas vezes, Deus permite que passemos por situações bem difíceis, a ponto da esperança ficar bem pequena (isso me remete aquele seu post do fio de esperança, ou algo assim) e Ele revela-Se a nós através de uma mensagem abençoada, alguma experiência, e dá aquela paz que excede todo entendimento humano, o amor inexplicável de Jesus invade nossa alma. Enfim, Deus está conosco sempre e nos ama muito, precisamos estar mais atentos aos detalhes.