Histórias de um hospital [3]
February 6th, 2008 por René Vasconcelos
Mais uma experiência no hospital São Paulo, em uma noite de evangelismo acompanhando a equipe de capelania evangélica do hospital.
Certa noite, evangelizávamos em um quarto do hospital no andar de tratamento de câncer, não me vem à cabeça a especialidade agora. Estávamos em um dos amplos quartos daquele andar. Convém citar aqui as ótimas condições físicas do hospital São Paulo; boa iluminação, equipamentos em bom estado de conservação, macas que parecem novas, ambiente nitidamente limpo e muito bem cuidado em comparação com os atuais hospitais públicos. É também interessante a diferença de cuidado entre um andar e outro; é que certos andares são “patrocinados” por empresas privadas, o que torna esses andares um pouco mais confortáveis.
Voltemos ao quarto. Evangelizávamos em um quarto com duas macas ocupadas por duas senhoras. Enquanto conversávamos com uma delas, no meio da sala, notei que a outra estava virada para a parede, chorando baixo. Seu choro emitia um som fino, como de criança tentando engolir o choro depois de uma bronca dos pais.
Deixei minha companheira de evangelismo a conversar e me dirigi até a senhora que chorava. Me apresentei, perguntei qual era o seu problema; ela estava já tomada por um câncer maligno, diagnosticado tardiamente, e no dia seguinte iria para casa desenganada pelos médicos. Durante as noites no hospital, ela se sentia muito sozinha e estava com muito pavor da eminente morte.
Conversei por um bom tempo com ela, falei que mesmo quando achávamos que não, o amor de Deus era sobre nossas vidas. Naquela noite, ainda chorando muito, ela aceitou a Jesus. Ao terminar a conversa - precisávamos nos retirar por causa do horário - ela comentou se sentir aliviada por estar acompanhada naquele momento. Ela disse saber quem a veio buscar. Aquilo me incomodou um pouco pelo fato de eu nunca ter acreditado muito nas histórias de pessoas verem coisas sobrenaturais perto da morte. Sua expressão realmente havia mudado; não parecia a senhora a chorar por causa de sua situação. Mas isso não queria dizer que ela pudesse ver ou sentir algo de sobrenatural. Além do mais, eu acreditava em sua cura, não na sua morte. Anotei o telefone de sua casa para saber se ela estaria bem durante a semana.
Alguns dias depois eu liguei para a casa daquela paciente; para minha surpresa ela havia falecido na terça pela manhã, dia seguinte de nossa visita. Aquilo me pertubou bastante. Apesar de crer em sua salvação e ficar maravilhado com o amor de Deus que, na última hora, nos mandou até aquele quarto de hospital para falar de Seu amor, o que mais me chamou a atenção foi o que ela me disse: “agora eu sei quem veio me buscar”.
Apesar do meu ceticismo em muitas coisas, tem coisas que não temos como explicar. O que fazia aquela senhora chorar naquele quarto não era o fato de morrer; era o medo de não saber quem a viria buscar. Depois que ela tomou certeza de sua salvação, creio que algo se fez presente naquele quarto que eu não vi, mas ela sim. E isso a aliviou da dor da morte.
Depois daquela noite, o sobrenatural não me pareceu mais tão explicável.
Postado em Wednesday, February 6th, 2008 at 6:29 am e salvo na categoria Reflexões. Você pode obter quaisquer respostas do post através de RSS 2.0 RSS. Você pode deixar um comentário, ou rastreá-lo a partir do seu site.
