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Antes de continuarmos nossas discussões sobre a literalidade da Bíblia, se ela é inerrante ou se é passível de erros, é válido conversarmos um pouco sobre sua origem. De onde vem esse livro que guardamos empoeirado na estante ou amarelando sobre a mesa, aberta no Salmo 91? Como foi compilado, como foi copiado até os dias de hoje, quais os fatores que pesaram na escolha dos livros que o compõem e, principalmente, ele foi adulterado para cegar a fé cristã? Vamos começar.
***O Antigo Testamento***
O Antigo Testamento como nós conhecemos se origina do Tanakh, a Bíblia dos judeus. Ela é composta pelos mesmos textos do nosso Antigo Testamento, mas em posições geralmente diferentes. O Tanakh é composto por diversos livros provindos da tradição hebraica. Muitos desses livros não foram escritos na mesma época em que os fatos descritos aconteceram; provém de uma tradição oral, de histórias que passaram de geração em geração e foram transformados em escritas. Por exemplo: Gênesis é uma compilação de histórias já existentes na tradição hebraica, que Moisés teve o trabalho de ajuntá-las, organizá-las e montá-las, originando Gênesis como nós conhecemos.
Já livros como Samuel e Reis foram escritos de maneira mais atualizada, pela já existência de escribas no reino, que redigiram as histórias de Israel desde os Juízes e os pensamentos de seus reis e profetas.
Mas esses livros não foram criados já grudados uns nos outros; eles eram livros avulsos. Foi com a Grande Assembléia, ou a Grande Sinagoga, assembléia composta por 72 escribas e profetas, que os livros foram “canonizados”, ou seja, que foram escolhidos os livros que fariam parte de um conjunto sagrado. Essa canonização não foi um processo rápido; estima-se que o Tanakh foi compilado entre 400AC até 200AC, num processo de eleição e escolha pelos livros que se adequavam ao Torah e que eram úteis à cultura e à religião hebraica. Essa assembléia teve origem com o fim dos profetas e durou por cerca de duas gerações, até a era rabínica. Para efeito de curiosidade, vale lembrar que o Tanakh é até hoje dividido em três partes:
- Torah: os cinco livros de Moisés (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronomio).
- Nevi’im: são os livros que cobrem, de maneira cronológica, a entrada na Terra Santa até antes do cativeiro babilônico, excluindo Crônicas. Composto por 8 livros, lembrando que I e II Reis e I e II Samuel são um livro só e os profetas menores estão todos em um só livro (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Os doze profetas).
- Ketuvim: São livros de poesias, cânticos e sabedoria. Formado por 11 livros (Salmos, Provérbios, Jó, Cantares, Rute, Lamentações, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras/Neemias, Crônicas).
***Septuaginta***
Segundo a tradição, 70 rabinos judeus de Alexandria traduziram o Tanakh para o grego, para Biblioteca de Alexandria. O trabalho foi terminado por volta de 150 AC e incluia livros que não faziam parte do Tanakh, os chamados livros deuterocanônicos, ou seja, livros apócrifos como Tobias, Macabeus, Judite, Sabedoria e Baruque.
***O Novo Testamento***
Vale lembrar que o Novo Testamento, assim como o Antigo, é composto por livros avulsos que foram escritos, muitas vezes, décadas depois do fato descrito por eles. Por exemplo, o evangelho escrito mais próximo da vida de Cristo data de cerca de 70DC. Até 50DC a tradição acerca do cristianismo era apenas oral. Porém dessa época, até 150DC, começaram a circular inúmeros documentos com histórias sobre Jesus, esinamentos, cartas, enfim… inúmeros documentos surgiam creditados aos apóstolos, mas de falsa autoria, além de textos originais adulterados.
A canonização, ao contrário do que muitos pensam não foi um processo instantâneo, onde um grupo de pessoas fizeram uma decisão e pronto; esse processo demorou séculos para ser consumado. Cada igreja usava um texto diferente e haviam muitos usando até mesmo textos gnósticos. Com o surgimento de tantos ensinamentos diferentes, se fazia necessária a sistematização do ensino cristão. Marcion de Sinop, bispo da Ásia Menor, foi o primeiro a dar criar um cânon, uma compilação de textos. Porém ele desprezou totalmente o Antigo Testamento a ponto de adulterar textos da vida de Jesus que o conectassem ao AT.
Desde Marcion, diversos outras tentativas de se formar um cânon foram promovidas. Passou pelo Muratorian, pelo Diatessaron, passou por Irineu e foi ficando cada vez mais parecido com o que nós conhecemos hoje, até chegar, em 331 DC, no tão conhecido Constantino, o Grande. Constantino conheceu o cristianismo através de sua mãe Helena e a fase de sua vida em ocorreu a sua conversão é incerta. Ele solicitou 50 bíblias a Eusébio de Cesaréia para a igreja em Alexandria. Eusébio compilou um texto composto por uma cópia da Septuaginta, os Evangelhos, algumas epístolas, carta aos Hebreus, Timóteo, Tito, Filemon e Apocalipse. Essa necessidade diante de Constantino gerou as primeiras “listas canônicas”, criando o Codex Vaticanus, um dos primeiros exemplos de Bíblia mais próximo com o que conhecemos hoje.
Constantino também convocou, em 325 DC, o Concílio de Nicéia, mas não com intuito de especular sobre o cânon; a grande questão era sobre doutrina, principalmente sobre a questão da relação Jesus-Deus. Ainda naquela época existiam igrejas que consideravam Jesus um profeta, outros um anjo, outros realmente Filho de Deus. Em 382 DC, Jerônimo traduziu a Septuaginta para latim e formou a Vulgata Latina, considerada como cânon oficial até o Concílio de Trento.
No Concílio de Trento, realizado em 1546, foi oficializado pela última vez a versão do cânon incluindo os livros deuterocanônicos. Esses livros estavam juntos à Vulgata, mas em uma seção chamada Apocripha. Neste concílio também foi condenado os princípios protestantes promovidos por Lutero. Foi neste ponto em que separaram as Bíblias e as doutrinas católicas das protestantes.
É bom lembrar que os concílios, assim como todos os grupos que fizeram parte dessa longa formação do cânon, tinham como base para aceitação dos livros: a autoridade do autor através da forma de escrever ou de passar uma idéia no texto; conteúdo que desmontrasse um real caráter divino, além de outros fatores. É interessante observar que, mesmo antes dos canôns, as igrejas cristãs usavam praticamente os mesmos livros para ensinamento. Demonstração de inspiração divina?
***Copistas e adulterações de texto***
Outro grande ponto de questionamento é sobre a autenticidade do texto canônico. Seria ele modificado ao bel prazer dos líderes religiosos para cegar os fiéis? Um texto adulterado por homens para manipular a sociedade? A história não nos permite tal hipótese. Como sabemos que o processo de canonização, ou escolha dos livros para formar a Bíblia, foi um processo lento, gradual e acontecia ao mesmo tempo em diversas partes do mundo, não há como pensar em uma mudança drástica dos textos por intuito dos líderes de manipular seus seguidores. Além disso, a Bíblia da forma que ela é hoje é o grande dedo apontado contra as igrejas tanto católica quanto evangélicas. Todos os erros cometidos por essas igrejas são fortemente combatidos na Bíblia. Porque então os líderes religiosos não removeram essas passagens bíblicas que condenam os erros eclesiásticos?
Algo que é possível e, por sua vez, devemos ficar atentos são pequenos erros não intencionais derivados de copistas. O Antigo Testamento passou por inúmeras mudanças de linguagens ao longo de milênios, o que deve ter deixado seus copistas enlouquecidos. Já o Novo Testamento passou por copistas amadores no princípio da igreja, que copiavam os textos voluntariamente conforme a necessidade das igrejas. Eram homens um pouco mais letrados que a maioria que tinham essa árdua tarefa. Só depois de algum tempo é que a igreja passou a separar e preparar homens especialmente para essa função, o que diminuiu bastante o perigo de alteração dos textos.
Existem também as alterações maldosas, muito comuns principalmente entre 50 e 150 AC. Eram gnósticos adulterando cartas paulinas, igrejas adulterando escritos para criar doutrina própria. Era tão comum que vemos muitos escritos dessa época finalizando com uma maldição contra quem adulterava os textos. Exemplo disso é o fim do livro de Apocalipse (Ap 22:18,19), no qual João amaldiçoa quem tentar adulterar o texto.
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O texto está grande… mas essa parte é muito necessária para começarmos definitivamente a conversar mais sobre a Bíblia.
***Fontes:***
Jewish Encyclopedia
Catholic Encyclopedia
The Septuagint - Joel Kalvesmaki
O que Jesus disse, o que Jesus não disse - Bart D. Ehrman
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