Um papo sobre a Bíblia [3] - se ela não for literal, o que será verdade?
agosto 27th, 2008 por René Vasconcelos
Esse estudo é uma série; para ler a série completa clique aqui.
Bom, já conversamos um pouco sobre as possibilidades de interpretação da Bíblia e da história desse livro tão importante para a construção da sociedade como a conhecemos e da nossa própria fé. Agora vamos conversar mais um pouco sobre a questão da literalidade bíblia (ou da falta dela).
Muitos ateus, gnósticos e pessoas mal intencionadas ficam apontando inúmeras falhas nos textos, erros históricos e discrepâncias numéricas. Considerar que a Bíblia não é literal, que apesar de ser inspirada divinamente foi escrita por mãos humanas e, por isso, apresenta alguns erros, responde a muitas dessas questões. Afinal, permanece o propósito da Bíblia de nos fazer conhecer a Deus e explica perfeitamente os erros no texto, por terem sido escritos e copiados por homens sujeitos a falhas.
Porém essa forma de pensar nos traz um enorme problema; se nem tudo na Bíblia é exatamente literal, então o que é? Como podemos acreditar que um texto quer dizer realmente aquilo que lemos? Como podemos continuar a sustentar nossa maneira de agir na Bíblia se não sabemos o que ela quer dizer realmente? Essas questões dão brecha para o surgimento de diversas novas filosofias, teologias, doutrinas e interpretações da Palavra. Afinal você pode pegar um texto que diz sobre alguma doutrina e distorce-la até chegar onde você quer.
Alguns grandes pensadores da atual igreja evangélica no Brasil trazem algumas tentativas de resposta quanto a esse dilema:
Ricardo Gondim fala sobre um “kit coerência”, que seria algo como a consciência própria. Se você vê que a sua interpretação de certa passagem bíblica não é coerente com a vida cristã e o resto da Bíblia, você descarta sua interpretação. O grande problema dessa visão é que os valores mudam muito de pessoa a pessoa; existem pessoas tão corrompidas que acham coerentes seus próprios erros.
Já Caio Fábio fala que toda a passagem bíblica deve ser comparada com as atitudes de Jesus Cristo. Se você percebe que a sua interpretação de certa passagem não é coerente com a vida de Cristo, você a descarta. Segundo Caio, a Bíblia é a Palavra de Deus enviada a nós através de mãos humanas, passível de problemáticas, mas Jesus era a Palavra encarnada, portanto, sem erros ou más interpretações. O problema é que os atos de Jesus também chegaram até nós através de mãos humanas, testemunhados através de livros escritos 40 anos após a Sua morte. Como saber se esses livros são literais ou não?
Nos corredores da sede da Assembléia de Deus Belém, aqui em São Paulo, corre uma teoria também interessante: se um ensino ou uma doutrina bíblica aparece mais de uma vez na Bíblia quer dizer que ela deve ser aplicada em nossas vidas. Apesar de ser interessante, é uma tentativa simplista de resolver uma questão tão complexa.
O assunto é de difícil trato e bem mais complexo do que se imagina. Eu, pessoalmente, não acredito que haja uma fórmula padrão para se verificar se uma passagem deve ser considerada literal ou não; todos os textos devem ser analisados detalhadamente para verificar se há a presença de erro ou algo acrescentado humanamente. Apesar dessa ser a solução mais dispendiosa, creio ser a mais criteriosa. Fatores como coerência textual, tradução e coerência doutrinária devem ser observados na hora de pensar num texto bíblico como literal ou não.
Mas por que coerência doutrinária? Na minha concepção, simplesmente porque a Bíblia, por ser inspirada divinamente, não apresenta falha doutrinária. Apesar dos textos possuirem pequenos erros de registro, a mensagem doutrinária e ensinadora, o que Deus realmente queria nos ensinar, foi preservada intacta através de milênios graças à intervenção divina.
Lembrando que essas visões sobre a Bíblia não são absolutas; apenas as estou mostrando para que o leitor tenha maior consciência sobre o que se pode pensar dela. Se você acredita ser a Bíblia uma palavra inerrante, ninguém está aqui para contrariá-lo. Nosso intuito é conversar mais sobre a Bíblia no propósito de instigar a necessidade de conhece-la mais profundamente.
No próximo capítulo começaremos a estudar as formas de analisar a Bíblia e suas possíveis falhas. Começaremos com o Pentateuco e sua forma de se relacionar com o povo de Israel.
Postado em quarta-feira, agosto 27th, 2008 at 6:24 am e salvo na categoria Estudos. Você pode obter quaisquer respostas do post através de RSS 2.0 RSS. Você pode deixar um comentário, ou rastreá-lo a partir do seu site.

agosto 27th, 2008 em 6:45 pm
Oi Renê,
Cara, devo dizer que você está mandando muito bem com esses últimos posts. Em termos de matéria doutrinária, concordo com vc em quase tudo, em linhas gerais.
Grande abraço e parabéns pelo trabalho, e obrigado tb por mencionar a revista no post.
agosto 27th, 2008 em 9:38 pm
Esse assunto vira problema quando entra atos dos apóstolos, Paulo Brabo e Tolstoy recusam todo esse livro (escrito Lucano, to falando que nem o Gutierrez agora :D) e acham muitas profundas contradições entre os dizeres de Jesus nos evangelhos com os atos dos apóstolos (dêr) como o “Pareceu-nos ao Espírito e a nós dizer”.
- http://baptizedinfire.wordpress.com/2008/07/29/vamos-falar-de-cessacionismo/
é espinhento essa parte, e pode-se abrir mão da atual verdade e forçar uma pesquisa mais ampla, o que muitos veriam como liberalismo, algo como ainda temos de correr atrás da verdadeira doutrina é algo impensável.
Pessoalmente eu tenho como somente um homem inspirado pode encontrar versículos inspirados.
Acabei de receber um comentário de um ateu, e ele veio… pasmem… com a bíblia em mãos!
agosto 28th, 2008 em 10:24 am
Mt bom o post e otimo site
gostei parabens
abs
agosto 28th, 2008 em 2:47 pm
[...] de ter comentado no Papo De Teólogo em seu 3° texto sobre Estudo Da Bíblia no qual ele desde o primeiro já aderiu ao [...]
agosto 29th, 2008 em 4:16 pm
Interessante…. muito interessante, e é um assunto de difícil colocação. A interpretação bíblica , para mim que sou leiga, deve ser feita sempre sob a luz do amor, e do amor de Cristo. Vejo muito “tomarem” versículos bíblicos para condenar e expulsar pessoas, para acorrenta-las ou escreviza-las a doutrinas etc, mas não vejo Cristo agindo assim… sempre vejo Cristo agindo com amor e perdão… até nos momentos em que ELE agiu com dureza, havia amor em Seus atos.
O que nos falta, não é interpretação, é amor em nossos atos e palavras.
setembro 1st, 2008 em 6:10 pm
Este papo está me agradando e muito. De fato creio que não era propósito de nenhum escritor bíblico fazer simples relato histórico dos eventos. Mesmo assim, entendo que é interesante a discussão a respeito dos critérios que validam este, ou àquele conhecimento. Assim, poderíamos contra-argumentar o porquê de muitos críticos ñ aceitarem as Escrituras tal como aceitam qualquer livro histórico.
Por ora fico com as palavras do apóstolo Paulo a respeito do sentido da Bíblia. Ela é o conjunto das “Sagradas letras que podem nos tornar sábios para a salvação que há em Cristo Jesus”.
Um abraço a Todos!!!!!!!!!!!!!
setembro 3rd, 2008 em 10:01 am
Essa história de que uma doutrina deve ser estabelecida quando ocorrer em mais de um versículo, tem seu paradoxo no ósculo. Onde Paulo ordena que os crentes se beijem em seis ocasiões diferentes. E aí? Vamos cumprir?
setembro 24th, 2008 em 9:42 am
Segundo uma amiga minha que é da Itália, lá osa centes se beijam, inclusive os homens.