Papo de Teólogo

Conhecereis a verdade e ela vos assustará.

Um papo sobre demônios [1] - O Antigo Testamento

April 23rd, 2008 por Rene

Acompanhe esse texto utilizando a Bíblia OnLine para ler as referências bíblicas.

O cristianismo sempre possuiu uma marca: a diferenciação evidente entre bem e mal, certo e errado, benção e maldição, personificadas através de duas estruturas: Deus e seus anjos como o bem e satanás e seus demônios como o mal; um reino dividido meio-a-meio, com cada parte tendo domínio sobre seus seguidores. Esse pensamento facilita bastante o pensamento e a filosofia cristã, porém nem sempre é o modo correto de encarar as coisas. Seria o diabo um mito, já que o Antigo Testamento mal cita ele? Seria uma invenção do homem para aliviar a tensão de pensar num Deus que pune nossos erros? Ou um meio de escape para culparmos alguém por esses mesmos erros? Seria o diabo um assistente direto de Deus, sob Suas ordens? Ou seria ele mesmo um príncipe das trevas, alguém com poder e petulância o suficiente para confrontar o próprio Deus frente a frente?

Ao contrário do que muitos pensam, o diabo é citado por diversas vezes no Antigo Testamento. Como o Espírito Santo e, consequentemente, a revelação do espiritual, era na época limitada para pessoas específicas, o diabo foi realmente muito pouco citado. E, em todas as citações, vemos uma extrema submissão do agir do diabo aos propósitos de Deus.

Em primeiro lugar, o povo hebreu não pensava em demônios como nós pensamos. Para eles, demônios nada mais eram que espíritos avulsos enviados por Deus para uma certa punição. Quem abençoava ou amaldiçoava era Deus e ponto final; dEle era a justiça e a condenação. Não existia ação de demônios tentando contra Deus; para eles era inconcebível a idéia de um ser pensar em se opor ao Senhor Todo Poderoso. Vemos isso claramente em IS 45:6,7:

“Para que se saiba, até ao nascente do sol e até ao poente, que além de mim não há outro; Eu sou o Senhor e não há outro. Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; Eu, o Senhor, faço todas estas coisas.”
O que você pensa sobre esse conceito?

Então, no Antigo Testamento, temos o conceito de demônios como espíritos específicos extremamente obedientes à vontade de Deus. Agiam somente sob Sua permissão, somente sob o Seu mando. Vamos citar alguns casos bem conhecidos da ação desses espíritos, prestando atenção que era sempre sob a ordem de Deus:

- (Is 13:21 / 34:14) Isaías cita um ser, o sátiro, do hebreu setrim (cabeludo, bode). Em Levíticos 17:7 essa palavra é utilizada significando “demônio”. Esse demônio em Isaías é citado significando uma maldição local, um demônio territorial, um sinal de vergonha da terra, primeiro contra o sítio da Babilônia, segundo como uma ameaça a Israel.
Vale lembrar que, por causa desse demônio citado em Isaías, os árabes evitam até hoje os locais dessas ruínas.
Observemos que a ação dos sátiros em amaldiçoar uma localidade é limitada à ordem do Senhor; clara evidência da vassalagem dos sátiros em relação a Deus.

- (1Sm 16:23) Samuel cita um espírito que era enviado por Deus para atormentar Saul e que se retirava dele quando Davi dedilhava sua harpa.

- (Ex 12:23) Na história da saída do povo hebreu do Egito, a última praga tem um nome: O Destruidor. Ele retira vidas humanas, agindo como uma peste instantânea. Ele é citado também 2Sm 24:15,16, dessa vez como Anjo Destruidor. Um espírito que age como punidor e destruidor, agente direto da ordem de Deus. Chamá-lo de anjo ou demônio não muda a sua função; aos olhos dos homens ele levava maldição, destruição e morte, a mando do Senhor.
Muito poderoso, a ação dele é possivelmente vista em 2Re 19:35, matando 185.000 assírios numa só noite!

- (2Cr 18:18-22) Um espírito de engano se apresenta diante do Senhor para ir e enganar o rei Josafá, agindo como mentira através das bocas de seus profetas. Deus permite a ação desse demônio mentiroso e engana Josafá. Uma cena, no mínimo, intrigante: Deus pergunta quem se proporia a enganar Josafá. Esse espírito enganador, que estava na presença de Deus se propõe e recebe autorização para enganar os profetas. Ou seja, o demônio da mentira estava na presença de Deus a espera de uma ordem.

Ps. Não levei em consideração nenhuma mitologia hebraica (como Azazel), nenhuma escritura rabínica-judaica, nem Jó, por considerar a participação do diabo um acréscimo ao livro original, feito por Esdras pós-exílio. E você, o que pensa sobre a participação do diabo em Jó?

Verificamos hoje que os hebreus consideravam a existência dos demônios e os tratavam como instrumentos da vontade de Deus como punição e maldição aos homens; eles eram cruéis e poderosos, mas também eram nulos perante a vontade de Deus. Muito diferente de como lidamos com a figura do diabo atualmente, o culpando por todos e quaisquer problemas que tenhamos. Ao invés disso, deveríamos ponderar sobre quais atitudes nossas estão propiciando as ações do diabo, o que Deus quer nos ensinar através dele, e que precisamos consertar para Deus parar as ações do diabo. E você, que opinião possui sobre a ação do diabo na vida das pessoas? Comentem!

No próximo capítulo dessa série, discutiremos sobre o surgimento da figura do diabo; ele desafiou a Deus? Caiu do céu com um terço dos anjos? Era o anjo mais bonito e maestro do coral de anjos?!

Postado em Wednesday, April 23rd, 2008 at 9:48 pm e salvo na categoria Estudos. Você pode obter quaisquer respostas do post através de RSS 2.0 RSS. Você pode deixar um comentário, ou rastreá-lo a partir do seu site.

8 Comentários para “Um papo sobre demônios [1] - O Antigo Testamento”

  1. Maria disse:

    Na minha opinião o diabo só age na vida da pessoa qdo ela permite,isso pode ser sem mesmo a pessoa saber.Em minha conversão ,sofri muito,o diabo não me dava paz ,se manifestando sempre em minha pessoa,pq eu qd vivia no mundo fazia todas as suas vontades,eu bebia deixei de beber,eu fumava,deixei de fumar eu ia as baladas dexei de ir,tinhas atitudes sensuais ,deixei disso ,e não foi aos poucos que deixei tudo ,me entreguei ao senhor em uma hora na mesma larguei tudo para nunca mais voltar…passei 6 meses lutando com o diabo para permanecer na presença de Deus,e venci em nome de Jesus,…pois bem pq o diabo se sentia no direito de me atormentar? pq eu dei permissão á ele fazendo suas vontades e qdo deixei ele não se conformou e Deus também permitiu esses ataques ,mas me amparou para que eu ganhasse experiência para o trabalho que tenho hoje ,que em outra oportunidade eu comento
    Bom essa é minha opinião.

  2. Daniel disse:

    hehehe. Bom o texto. Concordo com a parte que o diabo age apenas com a permissão de Deus e dentro dos propósitos de Deus porém acredito que o mesmo não tem o intuito de em seus atos glorificar a Deus, mas o contrário. Considero a bíblia como um todo e não partes dela, e creio na soberania de Deus em mantê-la infalível e inerrante, sendo assim não citaria textos isoladamente. Analisando como meta-história vejo que o diabo colabora com os planos de Deus, mas não como seu objetivo, assim como foi com Judas, Ciro ou Faraó na fuga do Egito.

    Não acho que o diabo seja apenas mais um anjo de Deus. Acredito que ele veio sim para roubar, matar e destruir e que ele age sim se dermos não estivermos debaixo da vontade de Deus.

    Acredito sim que Deus criou o inferno para o diabo e seus anjos e que aquele é um lugar de tormento, choro e ranger de dentes. Acredito também que Deus não castigaria o diabo se este fosse apenas mais um de seus servos corroborando apenas conforme a sua vontade, assim como não o faz com o homem.

    Acredito também que Deus deu o livre-arbítrio para fazerem sua vontade ou não, claro dentro de sua soberania e presciencia, nunca sendo pego de surpresa, e agindo nestes momentos de maneira reativa e às vezes usando o mal para fazer sua vontade sim.

    Já discutimos muito isso, rs. Além de termos tido experiências práticas também, rs. Ali vi que realmente era vontade de Deus que houvesse aquela manifestação para que o nome de Deus fosse glorificado e houvesse conversões, mas ocorreu de forma reativa por aquela pessoa não ter se entregado a Deus antes.

    E deixo uma pergunta: Se o diabo é apenas um servo debaixo da vontade soberana de Deus e não um anjo caído, isto não corrobora para a doutrina presbiteriana da predestinação? Mais especificamente o calvinismo supralapsariano onde nada ocorre que não seja a vontade de Deus?

    Abraço irmão!!! Graça e Paz!!!

  3. Gi disse:

    Na minha opinião, o diabo é um ser legalista, por exemplo; ele não pode tocar na renda de um cara que tem sua contas em dia…Mas tambem acho que ele não deixa de tentar,creio que ele não pede permissão pra Deus em tudo, é como se fosse na lei ele sabe oque ele pode ou não fazer, costumo dizer que o problema não é quando Deus põe a mão e sim quando Ele tira…

    Tambem não acredito em predestinação, pois sabemos que existe causa e consequencia se vc faz uma determinada coisa isso te leva a algo, a diferença está nas sua escolhas…

    Mas estou anciosa pela proxima parte rsss…

  4. Gi disse:

    Bem , mandei um E-mai para o Rene,a respeito de uma duvida que tive ao continuar a estudar o assunto, mas acho que ele é muito ocupado rsss.
    Ai fica aqui tambem, vai que alguem consiga me mostrar um outro ponto de vista

    Houve influencia babilonica na biblia em relação a satanas??? pois em II SAMUEL- 24:1 (622 a.C)vemos que a atitude erronea de Davi vem de Deus; ja em I CRONICAS-21:1(300 A.c ou seja depois do exilio)vemos a mesma só que agora sendo culpa de satanas…

    Bem se alguem puder me mostrar outro ponto de vista eu agradeço!!!

    Paz a todos…

  5. admin disse:

    A paz Gisane,

    O que ocorre entre os dois versículos recebe o estranho nome de “idiotismo hebraico“, que nada mais é que dois pontos de vista sobre o mesmo assunto. Se você acredita que a Bíblia é uma verdade inquestionável, você pode unir os dois pontos de vista sobre o mesmo assunto e escrever:

    E a ira do Senhor se tornou a acender contra Israel, e incitou, através de satanás, Davi a enumerar Israel.

    Esse ponto de vista completo nada se faz diferente de 2Cr 18:18, já citado no post. Aí você pergunta: porque Deus castigou Davi por um pecado provocado por Ele mesmo? Aí respondo: o Senhor viu que o povo de Israel - e o próprio Davi - estava muito orgulhoso de suas vitórias, a ponto de se acharem praticamente auto-suficientes. Deus, nesta situação, os mostrou (e mostrou inclusive a Davi) que a suficiência provém de Deus.

    Devo lembrar aos leitores que não estou pregando a posição “diabo como instrumento de Deus“; estou apenas lhes mostrando a posição hebraica no Antigo Testamento.

    Quanto a influência babilônica sobre a mitologia hebraica; houve sim. Mas veja bem: sobre a mitologia, não sobre a Bíblia. Mas isso é assunto para os próximos capítulos…

  6. Rubem disse:

    Achei interessante a sua abordagem. As pessoas crêem (ou dizem crer) na soberania de Deus, desde que essa soberania não interfira em suas vidas. Há um ditado que diz que as pessoas estão prontas para aceitarem a Deus em todos os lugares, inclusive em seus corações, menos no lugar onde Ele efetivamente está: EM SEU TRONO. Parabéns.

  7. admin disse:

    Rubem, obrigado pelo comentário. Deus o abençoe.

    Eu havia esquecido de responder à questão do Daniel… pensar no demônio como instrumento de Deus e não como um adversário dEle nos dá amparo para pensar que apenas nós somos os limitadores do agir de Deus em nossas próprias vidas por causa do maledeto livre arbítro, não o demônio. Pensar assim vai totalmente contra a predestinação.

    Outra coisa… não quero, como certos escritores loucos por aí, propagar a adoração ou sequer uma relação amistosa com os demônios; eles contém sim a essência do que é mal e merecem nosso despeito. O texto visa ilustrar que não se pode equiparar o poder do diabo com o poder de Deus. Seja no céu ou no inferno, quem orquestra TODO o universo é Deus.

    Ah! Calvinismo supralapsariano na verdade é a idéia de que Deus determinou os eleitos antes mesmo de permitir a queda do homem, ao contrário do infralapsariano no qual primeiro é permitida a queda e depois determinados os eleitos. O conceito de vontade de Deus soberana é igual nos dois.

  8. Daniel disse:

    Sim. O supralapsariano diz que tudo é vontade de Deus, ou seja, até mesmo o pecado.

    Não existe equiparação de poder algum. O meu ponto é que o diabo é um anjo caído. Mas diferentemente do homem, pra ele não há redenção. Tanto homem quanto o diabo não são nada diante de Deus, por mais que pensem que são.

    Se Deus orquestra TODO o universo, isso significa que tudo está dentro de sua vontade certo? Ou orquestra algo improvisado? Os instrumentistas são escolhidos por Ele?

    Qual seria a visão do cristianismo sobre o diabo e não apenas dos judeus? Pois poderíamos ter uma visão holistica sobre isto, e não apenas a primeira parte da bíblia que serve como sustentação para o novo testamento e não o contrário.

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